Decisão do STF autoriza busca e apreensão contra publicitário apontado como operador do "Projeto DV"; investigação aponta vigilância contra jornalista e presidente do Itaú

Letícia Sales Publicado em 10/07/2026, às 08h15
Uma organização criminosa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro oferecia pagamentos de até R$ 2 milhões a influenciadores digitais para atacar o Banco Central nas redes sociais, segundo apurou a Polícia Federal. O esquema, batizado internamente de "Projeto DV", teve mais uma fase revelada nesta quinta-feira (9), com a assinatura de uma nova decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero.
A ordem judicial autoriza busca e apreensão contra o publicitário Thiago Miranda Silva, identificado pela PF como o principal responsável pela execução do esquema. Miranda teve celulares, documentos e dados em nuvem visados pela medida, além do afastamento dos sigilos bancário, fiscal e telefônico.
Como o esquema funcionava
De acordo com a investigação, o grupo abordava influenciadores e jornalistas com propostas de contrato para divulgar conteúdos favoráveis ao Banco Master e questionar a decisão do Banco Central de liquidar a instituição. Antes de conhecer os detalhes da proposta, os contratados eram obrigados a assinar acordos de confidencialidade, sob multa de R$ 800 mil em caso de vazamento.
Um dos casos citados pela PF é o do vereador Rony Gabriel. Segundo seu depoimento, um representante da empresa UNLTD ofereceu inicialmente um trabalho de "gerenciamento de reputação" para "um importante executivo". Somente após a assinatura do contrato o vereador descobriu a real tarefa: gravar vídeos afirmando que o Banco Master havia sido "vítima" do Banco Central.
Quem recusava as propostas, afirma a PF, passava a ser alvo de intimidação, com uso de dados privados obtidos ilicitamente.
A origem do dinheiro
Os pagamentos aos influenciadores partiam diretamente de Thiago Miranda, fato que ele próprio confirmou em depoimento à polícia. Miranda relatou ter usado parte dos recursos obtidos com a venda de uma fatia do portal de notícias Léo Dias — negociação de R$ 3,5 milhões que teria aproximado o publicitário de Vorcaro, interessado em montar um conglomerado de mídia.
Os valores eram repassados pela Super Empreendimentos e Participações, empresa ligada ao banqueiro. Para a PF, contudo, a origem última dos recursos estaria no esquema de fraudes financeiras do Banco Master, alvo da Operação Compliance Zero desde a prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
Segundo Miranda, o "Projeto DV" nasceu logo após a primeira soltura de Vorcaro, quando ele próprio teria procurado o banqueiro com um "plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise". O publicitário confirmou que a iniciativa previa "matérias a serem veiculadas em mídia sobre a prisão e sobre toda a investigação relacionada ao Master".
Vigilância sobre jornalista e banqueiro
A investigação aponta que a atuação do grupo ia além da compra de postagens. Miranda e Vorcaro teriam discutido estratégias contra a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, responsável pela cobertura do caso Master. Dados financeiros, familiares e patrimoniais da jornalista foram levantados, incluindo gastos com cartão de crédito e o veículo que utiliza — numa tentativa, segundo a PF, de constrangê-la e desacreditá-la.
Método semelhante teria sido aplicado contra Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, e sua esposa. Em mensagem a Miranda, Vorcaro escreveu: "Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy". A resposta do publicitário veio de imediato: "Deixa comigo." Um dossiê sobre o casal, com a identidade visual da agência de Miranda, chegou a circular entre os dois.
Miranda também relatou a Vorcaro manter relação próxima com a companheira de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central — vínculo que, segundo a PF, seria explorado em benefício do grupo. Há ainda registros de pressão direta sobre jornalistas para a retirada de reportagens do ar. Ao ver um conteúdo removido, Miranda comemorou: "Mais um arquivado!"
"Contornos de máfia", diz ministro
Na decisão, o ministro André Mendonça classificou os elementos reunidos pela investigação como consistentes, afastando qualquer leitura de "meras conjecturas". Para ele, o grupo apresentava "contornos de máfia" e agia sistematicamente contra qualquer pessoa vista como obstáculo aos interesses de Vorcaro. A Procuradoria-Geral da República se manifestou favoravelmente às buscas.
A defesa
Em nota, a defesa de Thiago Miranda negou de forma categórica a prática de qualquer ilegalidade por parte do publicitário. Segundo o texto, Miranda "sempre pautou sua atuação profissional pela legalidade, pela transparência, pelo respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão, não tendo praticado qualquer ato criminoso, tampouco participado de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros".
A defesa ressaltou ainda que a existência de investigação em curso não autoriza qualquer juízo antecipado de culpa, e que devem ser preservadas as garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência. Afirmou também que Miranda está "inteiramente à disposição das autoridades competentes" para colaborar com a apuração dos fatos, e que acompanhará "todos os atos do procedimento" para assegurar que a investigação seja conduzida "com equilíbrio, técnica e respeito às garantias legais".
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