Durante a Virada Cultural, mural de Di Cavalcanti é pichado, gerando revolta entre defensores do patrimônio artístico em São Paulo

William Oliveira Publicado em 27/05/2025, às 08h00
Durante a Virada Cultural, no último sábado (24), um ato de vandalismo chocou frequentadores e defensores do patrimônio artístico de São Paulo. Dois indivíduos foram flagrados por câmeras de segurança pichando um mural do renomado artista Di Cavalcanti, localizado na fachada do Edifício Triângulo, no Centro da capital.
A obra, que retrata operários e suas ferramentas, é um patrimônio cultural tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp). Situada no prédio projetado por Oscar Niemeyer — um dos ícones da arquitetura moderna brasileira — a pintura compõe um dos raros encontros entre duas figuras lendárias das artes visuais brasileiras.
As imagens mostram um dos vândalos, usando boné vermelho, iniciando a pichação agachado diante do mural. Em seguida, um segundo homem com boné preto se junta a ele, utilizando uma lata de spray para danificar a pintura. O crime ocorreu em plena Rua José Bonifácio, na movimentada região da Sé, enquanto transeuntes passavam pelo local.
Everaldo Batista dos Santos, zelador do Edifício Triângulo e morador há 27 anos, não escondeu a frustração: “Em plena noite da Virada Cultural, em vez de ajudar, fazer alguma coisa para ver o painel restaurado, as pessoas fazem isso no painel do Di Cavalcanti, um mural famoso no mundo inteiro. Tenho até vergonha de falar sobre isso. Muito triste.”
O urbanista Gabriel Rostey também lamentou o ocorrido e ressaltou a importância tanto do mural quanto da edificação:
“A importância desse prédio dispensa maiores comentários, porque é do Oscar Niemeyer o projeto, o arquiteto brasileiro mais famoso em todo o mundo, tem esse painel do Di Cavalcanti, que é um dos principais nomes das artes plásticas brasileiras, tem uma vista fabulosa... Em pleno Centro da cidade, é um exemplo claro de potencial não aproveitado.”
O Edifício Triângulo, construído no quarteirão delimitado pelas ruas José Bonifácio, Direita e Quintino Bocaiúva, se destaca por seu formato arquitetônico singular. Apesar de sua relevância histórica e artística, permanece invisível para muitos que passam diariamente pela região central.
Na fachada, o mural já apresentava marcas do tempo, agravadas por um incêndio acidental nos anos 1990. Desde então, Everaldo tem se dedicado a buscar apoio para sua restauração. “Não vou desistir, não. Se eu não conseguir ver esse painel restaurado, que meus netos vejam”, afirmou.
A Prefeitura de São Paulo esclareceu que, por se tratar de um bem privado tombado, a conservação do mural é de responsabilidade do proprietário. Qualquer intervenção precisa ser aprovada pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e pelo Conpresp.
Apesar dos danos recentes, há esperança. Especialistas defendem que o poder público e a sociedade civil se unam para valorizar o centro histórico da cidade, resgatando seu patrimônio e promovendo iniciativas culturais.
Além de zelador, Everaldo também atua como um verdadeiro guardião da memória do local. Ele oferece visitas guiadas informais pela cobertura do edifício, que proporciona uma vista panorâmica deslumbrante da cidade
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