Victor Shimada, conhecido como "Japa", era um dos alvos da Operação Exchange e teria usado mais de 70 empresas para movimentar recursos do tráfico internacional de drogas

Letícia Sales Publicado em 03/07/2026, às 13h41
A Polícia Federal atribui a fuga do empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, suspeito de comandar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas, ao anúncio de sanções impostas contra ele pelos Estados Unidos na última quarta-feira (1º). Shimada era um dos alvos da Operação Exchange, deflagrada nesta sexta-feira (3) para desarticular a organização criminosa, mas não foi localizado pelas equipes policiais e passou a ser considerado foragido.
A operação havia sido autorizada pela Justiça em 2 de junho e já estava em fase de preparação quando as sanções americanas foram divulgadas. Segundo fontes da PF, esse tipo de ação envolve semanas de levantamentos, monitoramento de alvos e planejamento logístico. Policiais ligados à investigação afirmam que Shimada desapareceu do radar das autoridades logo depois de ser incluído na lista de sanções do governo americano por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
"Doleiro moderno" teria usado mais de 70 empresas
De acordo com policiais federais envolvidos no caso, Shimada utilizava uma rede de mais de 70 empresas para lavar dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas, atuando como uma espécie de "doleiro moderno". Ele é sócio das empresas Victory Trading e Avenidas Flutuantes Unipessoal, esta última com sede em Portugal — ambas também punidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
O empresário foi classificado pelo governo americano como elo-chave entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais, sendo acusado de lavar mais de US$ 30 milhões — cerca de R$ 156 milhões — em recursos ilícitos gerados em diversas cidades dos EUA, utilizando criptomoedas para transferir os valores de volta ao Brasil em nome da facção. Ele também é acusado de se envolver em outros crimes financeiros além da lavagem de dinheiro do tráfico.
No Brasil, Shimada segue investigado por suposta participação em operações de lavagem de dinheiro ligadas ao caso VaideBet, que apura desvios de recursos do contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas. Sua localização já era considerada incerta nesse processo, já que ele não foi encontrado em casa por oficiais de Justiça nem constituiu defesa formal na ação penal.
Defesa aguarda acesso aos autos
Questionado sobre a operação desta sexta-feira, o advogado Yuri Cruz, que passou a representar Shimada recentemente, disse à GloboNews que só vai se manifestar após ter acesso às decisões judiciais e aos elementos que fundamentaram as medidas adotadas. "Tão logo tenha acesso aos autos e às informações oficiais, a defesa realizará a análise técnica do caso e adotará as medidas jurídicas que entender cabíveis", afirmou em nota.
O advogado disse ainda que pretende conversar com o cliente após o término das buscas para decidir se há interesse em se apresentar à polícia.
Sete dos 11 mandados de prisão já foram cumpridos
A Operação Exchange havia cumprido, até a última atualização desta reportagem, sete dos 11 mandados de prisão temporária expedidos pela Justiça. Entre os presos está Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, secretária de Shimada, também incluída na lista de sanções dos Estados Unidos.
Segundo a Polícia Federal, Stella e Shimada utilizavam apelidos para dificultar a identificação das comunicações — nas investigações, o empresário era chamado de "Japa", enquanto a secretária era conhecida como "Lara Croft". De acordo com a acusação, Stella coordenava a coleta e a movimentação de valores em espécie, enquanto Shimada atuava como elo entre operadores financeiros e traficantes ligados ao PCC no Brasil.
Além dos mandados de prisão, a Justiça autorizou 13 mandados de busca e apreensão em endereços da capital paulista, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba, além do sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados que pode chegar a R$ 10,4 bilhões.
Segundo a PF, o grupo utilizava um sistema estruturado para movimentar recursos por meio de transferências ilícitas de criptomoedas, transporte de dinheiro em espécie, operações bancárias de alto valor e repasses entre pessoas físicas e jurídicas. Os investigados poderão responder, em tese, pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Áudio revela preocupação com o FBI
A apreensão de Shimada com investigações internacionais já havia aparecido em materiais extraídos de seu celular pela Polícia Federal. Em um áudio de agosto de 2024, o empresário afirmou acreditar que uma investigação envolvendo uma fraude de mais de R$ 35 milhões contra o Banco Votorantim poderia chegar ao FBI, a polícia federal americana.
"É, mano. Esse papo vai dar FBI, mano. Você entendeu? Não é brincadeira. Os caras estão investigando pesado", disse Shimada em uma das gravações, feita oito dias após o desvio milionário identificado pelo banco.
A investigação da Polícia Federal apura essa fraude contra o Banco Votorantim desde agosto de 2024. Segundo a corporação, parte do dinheiro desviado foi convertida em criptomoedas e passou pela empresa Victory Trading, ligada ao empresário. Em janeiro de 2025, Shimada já havia cumprido brevemente prisão domiciliar no Brasil neste mesmo processo, que não tem relação com a operação desta sexta-feira.
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