Projeto anunciado em 2008 enfrentou paralisações, mudanças de concessionária e impactos da Operação Lava Jato antes de sair do papel

Julio Cezar Souza Publicado em 02/07/2026, às 07h30
A cidade de São Paulo ganha nesta quinta-feira (2) um novo capítulo na expansão da malha metroviária. Após quase duas décadas desde o anúncio oficial do projeto, a Linha 6-Laranja inicia sua operação com a abertura do primeiro trecho, encerrando uma longa trajetória marcada por mudanças de cronograma, paralisações e investigações de corrupção.
Nesta primeira fase, o ramal entra em funcionamento com seis estações, ligando a região da Freguesia do Ó, na Zona Noroeste, ao bairro de Perdizes, na Zona Oeste da capital. A linha completa contará com 15 estações e deverá conectar Brasilândia à estação São Joaquim, no Centro, quando a obra for concluída, previsão atualmente mantida para o próximo ano.
Com expectativa de atender aproximadamente 600 mil passageiros diariamente, a Linha 6-Laranja fará integração com as linhas 1-Azul, 4-Amarela e 7-Rubi, além de uma futura conexão com a Linha 8-Diamante.
O empreendimento também marca uma mudança no modelo de gestão do transporte sobre trilhos em São Paulo. Trata-se da primeira linha de metrô construída e operada integralmente por meio de uma parceria público-privada. A espanhola Acciona foi responsável pela construção e será também a controladora da concessionária Linha Uni, encarregada da operação do sistema.
Ao longo do trajeto, a linha atenderá uma região conhecida pela concentração de instituições de ensino superior, passando próximo a universidades como a PUC, Mackenzie, Fundação Getulio Vargas, FAAP e Unip, característica que inspirou o nome da concessionária.
Operação começa em fase assistida
Assim como ocorreu em outras inaugurações recentes do metrô paulista, o funcionamento inicial será em caráter assistido. Durante esse período, os passageiros poderão utilizar o novo trecho gratuitamente, mas apenas entre 10h e 15h.
A circulação ocorrerá com apenas dois trens, um em cada sentido, realizando o percurso entre as seis estações em aproximadamente 19 minutos. A velocidade operacional será reduzida nesta etapa inicial, variando entre 30 km/h e 40 km/h, enquanto o limite máximo dos equipamentos chega a 90 km/h.
A transferência para a Linha 7-Rubi, na estação Água Branca, estará disponível desde o início da operação, mas seguirá com cobrança normal de tarifa.
Segundo a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), o período de testes permitirá acompanhar o desempenho dos equipamentos, da infraestrutura e dos sistemas antes da ampliação do serviço.
Obra enfrentou anos de paralisação
Embora os estudos para levar o metrô à região da Freguesia do Ó existam desde a década de 1970, foi apenas em 2008 que o então governador Geraldo Alckmin anunciou oficialmente a implantação da Linha 6-Laranja.
Na ocasião, a expectativa era entregar as primeiras estações em 2011. O cronograma, entretanto, nunca foi cumprido. As obras só começaram efetivamente em 2015 e acabaram interrompidas pouco tempo depois.
O principal motivo da paralisação foi a crise enfrentada pelo consórcio responsável pela construção, formado por empresas posteriormente envolvidas na Operação Lava Jato. Sem financiamento para manter o empreendimento, os trabalhos foram suspensos durante anos.
As investigações revelaram que contratos relacionados à Linha 6 foram citados em delações que apontavam o pagamento de propinas e o financiamento irregular de campanhas políticas.
O projeto só voltou a avançar em 2020, quando a Acciona assumiu a concessão e retomou as obras. Desde então, o cronograma foi reformulado e o custo estimado do empreendimento aumentou em relação ao previsto inicialmente.
Expansão da rede
Com a inauguração do novo trecho, a malha metroviária da capital paulista alcança 116 quilômetros de extensão. Considerando também as linhas de trem, o sistema ferroviário passa a somar 393 quilômetros em operação.
Apesar da ampliação, São Paulo ainda permanece distante das maiores redes metroviárias do mundo. Cidades como Pequim e Xangai superam os 800 quilômetros de metrô, enquanto Londres possui mais de 400 quilômetros de linhas em funcionamento.
Na América Latina, São Paulo ocupa atualmente a segunda posição entre as maiores redes exclusivamente de metrô, atrás apenas de Santiago, no Chile.
A expectativa do governo paulista é que, após a conclusão integral da Linha 6-Laranja, o novo corredor reduza o tempo de deslocamento entre a Zona Noroeste e a região central da cidade, além de aliviar a demanda em outras linhas do sistema.
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