Vídeos mostram policial afirmando que iria atirar antes da abordagem; caso é investigado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM

Letícia Sales Publicado em 16/06/2026, às 12h18
Novas imagens captadas por câmeras corporais de policiais militares lançam dúvidas sobre a versão apresentada por dois agentes envolvidos na morte do eletricista Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, durante uma ocorrência registrada na zona norte de São Paulo.
Os registros mostram que, antes mesmo de deixar a viatura, um dos policiais envolvidos na ação faz uma declaração sobre a abordagem que ocorreria segundos depois.

“Peraí que eu vou matar ele, eu vou dar tiro”, afirma o cabo Cauan Alencar Bastos.
Logo em seguida, o policial desembarca efetuando disparos na direção de Igor. As imagens indicam que o cabo realizou seis disparos, enquanto o soldado José Otávio Ribeiro efetuou um tiro ainda de dentro da viatura. Após os disparos, os dois agentes se aproximam da vítima, que já estava caída no asfalto.
O episódio ocorreu após um motoboy procurar os policiais em um posto de combustíveis e relatar uma discussão de trânsito com Igor. Segundo o entregador, o eletricista teria exibido uma faca durante o desentendimento.
Nos depoimentos prestados à Polícia Civil após a ocorrência, os policiais afirmaram que a vítima teria avançado contra eles, justificando os tiros como uma reação para conter uma suposta agressão. As imagens, porém, passaram a integrar a investigação por apresentarem uma dinâmica diferente da relatada oficialmente.
Baleado, Igor recebeu atendimento ainda no local e foi levado ao Hospital de Taipas, mas não resistiu aos ferimentos. Registros oficiais apontam que ele foi atingido por disparos na região das costelas e do quadril.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) e a Polícia Militar foram questionadas sobre a declaração registrada na câmera corporal, mas ainda não haviam se manifestado sobre esse trecho específico das gravações até a publicação desta reportagem.
Em nota divulgada anteriormente, após a divulgação de outras imagens do caso, a SSP informou que os policiais envolvidos foram encaminhados para avaliação psicológica, conforme os protocolos adotados pela corporação. Até o momento, não foram divulgadas informações sobre eventual afastamento dos agentes ou outras medidas administrativas relacionadas ao caso.
Paralelamente à investigação da Polícia Civil, a Corregedoria da Polícia Militar também conduz um inquérito para apurar a conduta dos envolvidos.
Familiares relataram que Igor era neurodivergente e havia sido diagnosticado ainda na infância. Segundo parentes, ele convivia com características associadas ao autismo, TDAH e epilepsia, mas levava uma vida independente e trabalhava há anos como eletricista realizando pequenos reparos.
Uma familiar, que preferiu não se identificar, lamentou o desfecho da ocorrência e acredita que a situação poderia ter sido conduzida de outra forma.
“O desfecho da história poderia ter sido diferente.”
Pessoas próximas descrevem Igor como alguém comunicativo, participativo e muito querido pela família. O eletricista foi sepultado no Cemitério Dom Bosco, na zona norte da capital paulista. Ele não era casado e não deixou filhos.
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