
por Marlene Polito
Publicado em 16/09/2025, às 12h39
O desalinho humano
“Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” Carlos Drummond de Andrade
Talvez cada um de nós, como sugeriu esse anjo ao poeta, receba ao nascer não o destino de ser belo, mas o chamado de viver desalinhado, gauche, no meio da vida. A palavra francesa significa “esquerdo”, mas também evoca o que anda ao contrário, o que foge ao compasso da maioria.
Não somos deuses, somos frágeis, vulneráveis, falíveis. O feio, nesse sentido, não é falha, mas espelho da vida que realmente nos cabe.
O feio como guardião
E se carregamos em nós esse desalinho, não é de estranhar que o tenhamos esculpido em madeira e pedra para que nos defendesse. Desde cedo, a humanidade buscou no feio uma forma de proteção: figuras desproporcionais, monstruosas, assustadoras. O feio tornou-se guardião contra forças invisíveis: os maus espíritos, o azar, a doença, os caprichos da natureza. Tudo o que escapava à razão encontrou no grotesco um escudo simbólico.
Quem navega pelo rio São Francisco já se deparou com as carrancas: figuras disformes, de bocas abertas e olhos arregalados, fixadas na proa dos barcos. Feias, assustadoras, mas justamente por isso guardiãs dos navegadores contra as forças sombrias.

O mesmo princípio moveu artesãos medievais a espalhar gárgulas monstruosas pelas catedrais, como sentinelas de pedra contra o mal. Também no Oriente surgiram figuras semelhantes: na China, os dragões Chiwen guardavam os telhados dos templos; no Japão, as máscaras de Oni eram usadas em rituais para espantar infortúnios; e na Coreia, as máscaras tal protegiam vilarejos. Não foi diferente entre povos indígenas e africanos. O feio, longe de ser um erro, tornou-se um aliado contra o invisível.
Do ritual à filosofia
O que começou como figura ritual logo ganhou também interpretação filosófica e cultural. Não apenas um amuleto, mas um conceito que atravessa séculos.
Aristóteles reconhecia que o feio podia aparecer na arte não como defeito, mas como recurso pedagógico, pois ao mostrar o que causa horror ou repulsa ajudava a purificar a alma e indicar o que não deve ser seguido.
Já Santo Agostinho via o feio como ausência de ordem e harmonia, mas ainda assim necessário, pois servia de contraste, lembrando a fragilidade humana diante da perfeição divina.

Muito mais tarde, Umberto Eco mostrou em sua História da Feiura que o feio muda de forma e função em cada época. Na Antiguidade, estava ligado à deformidade física e ao monstruoso; na Idade Média, foi usado nas igrejas para amedrontar fiéis e simbolizar o pecado; no Renascimento e no Barroco, ganhou exuberância em monstros ornamentais; na modernidade, virou até matéria- prima estética, com artistas como Picasso, Duchamp e Bacon.

O feio nunca desaparece: ora é rejeitado, ora é integrado à cultura. E justamente por ser instável, às vezes troca de lugar com o belo.
E quando o belo nos parece feio?
Essa inversão percorre a história da arte. O maneirismo, o barroco e o impressionismo, quando surgiram, foram considerados deformações, desvios do belo clássico. O que parecia grotesco ao olhar de uma época, revelou-se esplendor para os séculos seguintes. Não por acaso se repete o ditado: “A beleza está nos olhos de quem vê.”
Mas não é só nas artes que isso se cumpre. Nos amores também, o que parece feio para uns se torna fascinante para outros. A fronteira entre o belo e o feio nunca é definitiva; move-se com o tempo, a cultura e o olhar. Talvez o feio não seja inimigo do belo, mas reflexo de sua impermanência.
O grotesco digital
Essa mutabilidade não ficou no passado. Ela se repete em nossos dias, apenas em outras linguagens. Mesmo hoje, no mundo digital, o feio cumpre seu papel. Rimos de memes grotescos, espalhamos caricaturas exageradas, criamos avatares monstruosos em jogos.
Esses são nossos novos talismãs. Espalham-se e, de algum modo, nos protegem do que oprime. Desarmam pelo riso, desconstroem pela crítica, resistem pela irreverência. Como carrancas modernas, o grotesco digital guarda nosso imaginário contra o poder e o medo, transformando a ameaça em caricatura e o temor em riso coletivo.
Assim como no passado, o feio não afasta apenas ameaças externas, mas também enfrenta nossos próprios fantasmas. Ao proteger-nos, fala menos dos perigos de fora do que de nós mesmos, revelando fragilidades, sombras e medos. E talvez por isso seja tão necessário.
O feio, afinal, não engana: em vez de ilusão, oferece confronto; em vez de harmonia, alerta. E, assim, se Drummond foi convocado a ser gauche na vida, talvez nós também sejamos chamados a aceitar o torto, o desalinhado, o humano.
A beleza escondida no feio
Porque no fim, é nesse feio que se esconde a mais verdadeira forma de beleza. A beleza da verdade, que não ilude nem mascara. A beleza da função, que protege, alerta e vigia. E a beleza do humano, que nos lembra de nossa fragilidade e desalinho, mas também da partilha comum que nos faz homens.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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