
por Marlene Polito
Publicado em 24/03/2026, às 10h00
Ao ler o mito de Pigmaleão nas Metamorfoses, de Ovídio, um detalhe me chamou a atenção. O escultor, desiludido com as mulheres de sua cidade, decide viver sozinho e dedicar-se apenas à arte. Em sua oficina, esculpe em marfim a figura de uma jovem de beleza extraordinária. A estátua é tão perfeita que o artista acaba se apaixonando por sua própria criação.
Pigmaleão passa a tratá-la como se estivesse viva. Adorna-a com colares, veste-a com tecidos delicados, coloca flores em seus cabelos. Mas sabe que aquela figura continua sendo apenas marfim.
Durante as festividades dedicadas a Afrodite, dirige-se ao templo da deusa e faz uma prece tímida: pede que lhe conceda uma esposa semelhante àquela jovem que havia esculpido. O que, de fato, acaba acontecendo. A cena parece perfeitamente natural para um leitor moderno. Alguém vai ao templo e faz sua oração.
Mas, ao investigar melhor como funcionavam os templos na Grécia antiga, descobri algo inesperado: as pessoas quase nunca entravam neles.
Os templos gregos não eram concebidos como espaços de reunião dos fiéis, como ocorre nas igrejas atuais. Eram considerados, antes de tudo, a morada da divindade. No interior do edifício ficava a estátua do deus ou da deusa, instalada no espaço chamado naos. Ali se acreditava que a presença divina habitava simbolicamente o templo.
Diante do templo havia um altar. Era ali que se realizavam os sacrifícios e as oferendas. Bois, cabras, cordeiros eram sacrificados em cerimônias públicas.
Também se ofereciam vinho, azeite, perfumes, grãos e pequenas esculturas votivas. A religião grega tinha um caráter profundamente comunitário e cívico, e esses rituais reuniam a população em grandes festividades.
Essa concepção ajuda a compreender por que a arquitetura dos templos gregos privilegiava a harmonia exterior: colunas, frontões e proporções cuidadosamente calculadas transformavam o templo em uma presença monumental na paisagem da cidade, lembrando aos homens a constante presença do divino.
Um dos exemplos mais célebres é o Partenon, dedicado à deusa Atena, na Acrópole de Atenas. No interior do edifício ficava a grande estátua da deusa, obra atribuída ao escultor Fídias. As cerimônias, porém, aconteciam diante do altar externo.

O mesmo princípio orientava outros santuários, como o de Delfos, dedicado a Apolo. Reis, cidades e generais consultavam ali o deus antes de decisões importantes. Acreditava-se que Apolo transmitia suas respostas, muitas vezes enigmáticas, por meio da sacerdotisa conhecida como Píti, influenciando guerras, fundações de colônias e alianças políticas.
Mas os gregos não percebiam o sagrado apenas nos templos. A própria paisagem podia ser habitada pelos deuses. Montanhas, fontes, bosques e cavernas eram considerados lugares onde o divino se manifestava. Fontes eram associadas às ninfas; bosques inteiros podiam ser vistos como territórios sagrados.
Antes mesmo dos templos de pedra, era na natureza que os gregos encontravam o divino. Essa visão ajuda a compreender o papel dos templos. Eles não concentravam o sagrado, apenas o tornavam visível na cidade.
Séculos depois, o pintor romântico Caspar David Friedrich representaria algo semelhante em sua obra Wanderer above the Sea of Fog. Na pintura, uma figura solitária contempla uma paisagem vasta de montanhas e neblina. O homem parece pequeno diante da imensidão que o cerca.
A cena sugere que a experiência do transcendental pode surgir diante da própria paisagem.
Com o passar dos séculos, a forma de conceber o espaço sagrado mudou profundamente. O cristianismo introduziu outra lógica religiosa. A nova fé valorizava a reunião dos fiéis para a celebração comunitária e a escuta das Escrituras. Para acolher essa prática, os cristãos adotaram como modelo arquitetônico as basílicas romanas, grandes edifícios civis destinados a assembleias.
Mas a transformação foi ainda mais profunda. Em sua carta aos Coríntios, Paulo de Tarso afirmava: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo?” (1 Cor 6,19). O templo deixava de ser apenas uma construção de pedra. Passava a habitar também o próprio homem.
Essa ideia não era totalmente estranha ao espírito do mundo antigo. Os gregos nunca imaginaram que os deuses estivessem confinados aos templos. Montanhas, fontes e bosques eram percebidos como lugares onde o divino podia manifestar-se.
O cristianismo conserva essa intuição de que o sagrado não cabe inteiramente em um edifício. A diferença é que desloca essa presença para outro centro: não mais a paisagem, mas a própria pessoa humana. Talvez por isso a história dos templos onde ninguém entrava não seja apenas uma curiosidade da Antiguidade.
Ela nos recorda que o sagrado nunca permaneceu imóvel. Apenas mudou de morada. E talvez por isso a pergunta que atravessa os séculos continue a mesma: onde reconhecemos hoje a presença do sagrado?

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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