
por Marlene Polito
Publicado em 28/10/2025, às 09h21
O despertar do olhar
Em A Natural History of the Senses, Diane Ackerman reflete sobre as percepções que se perdem na velocidade dos nossos dias. Ela nos lembra que ver, ouvir, tocar, cheirar e saborear não são apenas formas de sentir, mas também de pensar o mundo.
Entre os cinco sentidos, a visão ocupa um lugar privilegiado. Para tocar ou provar algo, é preciso proximidade; o olfato e a audição permitem certa distância. Mas a visão vai além. Atravessa espaços e tempos, captando o mundo em fragmentos de luz.
Talvez o pensamento abstrato tenha nascido exatamente desse esforço do olhar para compreender o que via, como se pensar fosse uma extensão do ver.
O olhar, contudo, é volúvel. Fascina-se com o novo, mas se acostuma depressa, mesmo diante do trágico ou do sublime. O que é constante, paradoxalmente, desaparece.
A ciência e a arte, como diz Ackerman, nos sacodem: “Quer fazer o favor de prestar atenção?” São elas que reacendem a luz do que se tornara transparente.
O’Keeffe ensina o olhar a deter-se no detalhe. O infinito mora no particular. “I paint flowers so they won’t be ignored.”
O céu começa na terra
E então Ackerman nos oferece uma imagem inesperada, quase uma revelação:
“Olhe para os seus pés”, diz ela. “Você está de pé no céu.”
Costumamos olhar para cima, mas o céu começa na terra. O ar que respiramos é parte dele. Neste instante, inalamos partículas que um dia circularam nos pulmões de Leonardo da Vinci, Shakespeare e Colette.
Essa ideia vertiginosa dissolve fronteiras: não há um “acima” e um “abaixo”, apenas um grande corpo fluido que nos envolve. Só a gravidade, teimosa, mantém o céu preso à terra.
E talvez por isso o céu seja, desde o início, o espelho mais fiel da condição humana: vasto, mutável, inalcançável.
Foi nele que os povos projetaram seus deuses, suas memórias e esperanças. Um céu que muda de nome, de forma e de sentido, mas nunca deixa de nos fascinar.
O céu que os povos desenharam
Para os povos originários, o céu é mapa, calendário, morada dos ancestrais. Cada grupo de estrelas guarda um mito, uma forma de explicar o que é eterno a partir do visível.
Os gregos viam em Órion, o caçador transformado em estrelas, a lembrança de um amor impossível. Dos babilônios, herdaram o zodíaco, um mapa do firmamento que transformava o céu em espelho da vida. Assim nasceu o horóscopo, não como superstição, mas como tentativa de compreender os ritmos do universo.
Na pintura chinesa, o céu se expressa pelo vazio, o liubai, espaço de respiro entre os traços, onde circula o qi, a energia vital que liga todas as coisas.

Nos haicais japoneses, o céu é o espelho do tempo, aquilo que passa e, ao mesmo tempo, permanece.
Cada cultura desenhou o céu à sua maneira, mas todas intuíram o mesmo: o céu é linguagem. E olhar para ele é ler o mundo.
O mito da união primordial
Os antigos contaram que céu e terra já foram um só corpo. Na Grécia, Urano e Gaia se uniam todas as noites, até que Cronos, com sua foice, abriu entre eles o espaço do mundo, o alto e o baixo, o dia e a noite.
No Egito, a deusa Nut, corpo de estrelas, se arqueava sobre Geb, a terra silenciosa, sustentada por Shu, o sopro do ar. Assim nascia o equilíbrio entre matéria e espírito: o céu e a terra, separados, mas inseparáveis.
O céu que a tecnologia ocupou
Hoje, o céu é território. Satélites cruzam suas veias, drones o vigiam, constelações artificiais o cartografam. O que antes era domínio dos deuses tornou-se campo de disputa entre corporações e nações.
O céu tornou-se invisível não por constância, mas por excesso. A poluição luminosa apaga as estrelas nas cidades e, com elas, parte da imaginação. Há mais claridade, mas menos visão.
O que se perde não é apenas o céu visível, é o espanto, a pausa, a vertigem do infinito. Olhar para cima é, cada vez mais, um gesto de resistência.
O pão dos olhos
Talvez o que nos fascine no céu não seja o mistério do infinito, mas a lembrança de que fazemos parte dele.
Estamos imersos na mesma substância que envolve as estrelas, feitos de olhar, de ar, de espanto.
O céu não é apenas o que está acima, mas o que nos atravessa, nos pulmões, nos sonhos, nas palavras que escolhemos para nomear o indizível.
Olhar para o céu é mais do que contemplar. É reconhecer que há algo maior que nos envolve e nos habita. Ele é origem e destino, é mapa e espelho, é silêncio e pergunta.
Se o céu é, como dizia Emerson, “the daily bread of the eyes”, o pão de cada dia dos olhos, então olhar é um gesto de comunhão, não apenas com o mundo, mas com aquilo que em nós deseja compreender, pertencer, transcender.
Olhar, enfim, é o gesto que nos lembra quem somos: meros fragmentos do céu em busca de sentido

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

Dom Rafael perde direitos dinásticos após anunciar casamento

Motorista de Porsche morre após colisão contra mureta na Rodovia dos Imigrantes

Loja de fotografia é destruída por incêndio em Campinas; câmeras registram ação de suspeito

A Fazenda 18 já tem data de estreia; saiba qual

Quase 900 cobras escapam de criadouro durante enchentes no sul da China

Josh Grisetti, estrela de musicais da Broadway, morre aos 44 anos

Moraes suspende visitas de Flávio Bolsonaro ao pai por 90 dias e investiga possível propaganda eleitoral antecipada

Grupo quer Flávio longe de Lucas Bove; deputado é réu e defende "corrupto cristão"

São Paulo tem queda de casos graves ligados à influenza

Dino bloqueia R$ 6,15 milhões de Eduardo Cunha em apuração sobre emendas parlamentares