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COLUNA

As múltiplas faces da Beleza entre os gregos

Em Laocoonte, o corpo clássico perde definitivamente a serenidade - Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons
Em Laocoonte, o corpo clássico perde definitivamente a serenidade - Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons
Marlene Theodoro Polito

por Marlene Theodoro Polito

Publicado em 26/05/2026, às 12h49


Antes de a Grécia transformar a Beleza em proporção e harmonia, ela primeiro a transformou em fascínio.

Na Ilíada, de Homero, Helena aparece como a mulher cuja beleza teria levado gregos e troianos à guerra. Ainda não existe ali uma teoria do belo. Existe, porém, a percepção de que certas formas exercem sobre o homem um poder quase irresistível.

À medida que a civilização grega se transforma, o belo começa a adquirir contornos mais conscientes. A ascensão de Atenas entre os séculos V e IV a.C. produz não apenas poder político e econômico, mas também uma nova confiança na razão e na capacidade humana de organizar o mundo.

Sob Péricles, templos destruídos pelos persas são reconstruídos, enquanto escultura, arquitetura, teatro e filosofia florescem como expressão da potência ateniense.

É nesse contexto que a arte grega começa a se afastar da rigidez das formas egípcias.

Nas esculturas do Egito antigo, os corpos permanecem frontais e rígidos, submetidos a uma ordem ligada à eternidade. Com os gregos, algo lentamente muda.

Por volta do século VI a.C., os primeiros Kouros de Anavyssos ainda conservavam algo dessa rigidez. Permaneciam frontais e simétricos, mas o corpo começava a buscar outra presença.

A anatomia torna-se mais observada. O homem deixa de ser apenas símbolo de eternidade e passa a ocupar o centro da experiência humana.

anatomia já começa a despertar.
Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons

Essa transformação não se limitava à escultura. A própria filosofia começava a imaginar que o universo obedecia a relações proporcionais.

Como observa Umberto Eco em História da Beleza, Pitágoras sustentava que o princípio de todas as coisas era o número. Diante do infinito, os pitagóricos buscavam na proporção uma forma de tornar o mundo compreensível.

Talvez por isso a simetria tenha se tornado um dos grandes ideais da arte grega clássica.

Em Doríforo, do século V a.C., essa confiança atinge um de seus pontos mais altos. O peso do corpo se desloca suavemente sobre uma das pernas, enquanto o tronco acompanha discretamente o movimento. A harmonia surge menos da rigidez do que de uma contenção perfeita.

O Doríforo que hoje contemplamos, entretanto, já pertence também à história das perdas da Antiguidade. Muitas esculturas gregas chegaram até nós por meio de cópias romanas, já que os originais em bronze desapareceram ao longo do tempo.

Essa transformação não se limitava à escultura. A própria filosofia começava a imaginar que o universo obedecia a relações proporcionais. Como observa Umberto Eco em História da Beleza, Pitágoras sustentava que o princípio de todas as coisas era o número. Diante do infinito, os pitagóricos buscavam na proporção uma forma de tornar o mundo compreensível. Talvez por isso a simetria tenha se tornado um dos grandes ideais da arte grega clássica. Em Doríforo, do século V a.C., essa confiança atinge um de seus pontos mais altos. O peso do corpo se desloca suavemente sobre uma das pernas, enquanto o tronco acompanha discretamente o movimento. A harmonia surge menos da rigidez do que de uma contenção perfeita.  O Doríforo que hoje contemplamos, entretanto, já pertence também à história das perdas da Antiguidade. Muitas esculturas gregas chegaram até nós por meio de cópias romanas, já que os originais em bronze desapareceram ao longo do tempo
Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

Mas talvez a própria ideia de uma “Beleza clássica” perfeitamente estável tenha sido construída muito mais tarde.

Como lembra Eco, os gregos não possuíam inicialmente uma concepção única e sistemática do belo. A própria palavra kalón não corresponde exatamente ao que hoje entendemos por “beleza”. Designava aquilo que agradava, despertava admiração e atraía o olhar. No caso do corpo humano, porém, não eram apenas as formas visíveis que importavam. Também as qualidades da alma e do caráter participavam dessa percepção.

Talvez por isso a Beleza grega jamais tenha pertencido a um único domínio. Ela assumia formas distintas conforme a arte que a exprimia: na música, aparecia como harmonia; na poesia, como encanto; na escultura, como proporção; na retórica, como ritmo.

Não por acaso, essa busca de proporção ultrapassa a escultura e alcança também a arquitetura. No Partenon, a Beleza depende da relação precisa entre as partes.

Essa confiança na medida ultrapassava a arte e alcançava a própria maneira de viver.

No Oráculo de Delfos, inscrições como “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso” expressavam uma ética da contenção e do equilíbrio.

A Beleza clássica pressupunha harmonia entre corpo, caráter e razão.

A própria cultura grega, porém, já carregava outra força em movimento.

Ao lado de Apolo, deus da luz, da clareza e da medida, Dioniso permanecia associado ao êxtase, ao excesso e à dissolução dos limites. Apolo organizava. Dioniso arrastava. Um buscava equilíbrio; o outro, intensidade.

A harmonia jamais existiu sem a sombra da desordem.

Em Discóbolo, do século V a.C., o corpo já não repousa. Há tensão e energia, mas tudo continua obedecendo à proporção.

No Discóbolo, o movimento é capturado antes da explosão do gesto
Imagem: Reprodução: Wikimedia Commons

No século IV a.C., em Afrodite de Cnido, a Beleza clássica ganha delicadeza e sensualidade. A perfeição torna-se mais próxima do homem.

Wikimedia Commons

Após as conquistas de Alexandre e a expansão do mundo helenístico, a arte grega torna-se mais dramática e emocional. O equilíbrio cede espaço ao movimento intenso e à instabilidade.

A Vitória de Samotrácia já parece avançar contra o vento. A serenidade clássica começa a ceder lugar ao impacto emocional.

A Vitória de Samotrácia já não repousa. Avança contra o vento
Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons

Em Laocoonte e seus filhos, do século I a.C., o corpo clássico abandona definitivamente a serenidade imóvel e se contorce em dor e desespero. Era como se, por trás da medida de Apolo, Dioniso jamais tivesse deixado de esperar.


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