“Reconhecer o mundo é admitir que ele não termina onde estamos.” - Michel de Montaigne (adaptação)

por Marlene Polito
Publicado em 16/12/2025, às 09h22
Não sabemos seus nomes, não sabemos quantos eram, não sabemos de onde vieram com precisão. Sabemos apenas que vinham do Oriente e que se puseram a caminho.
Essa imprecisão histórica, longe de empobrecer o relato, é justamente o que o torna fecundo. Os Magos habitam uma zona rara. Não pertencem apenas à religião, mas à cultura; não simbolizam apenas a fé, mas a busca; não representam o milagre, mas a inteligência diante do sinal.
Mesmo o número três, consagrado pela tradição, não nasce de um dado histórico seguro, mas de uma leitura simbólica. Três como totalidade, como equilíbrio, como tentativa de compreender o mundo por partes que se completam. Desde a Antiguidade, o três organiza mitos, narrativas e sistemas de pensamento.
Antes de serem personagens do Natal, os magos já existiam como figuras culturais: intérpretes do céu, homens formados em civilizações que liam o cosmos como um texto. Observadores atentos, moviam-se por hipóteses. É a partir dessa chave, menos devocional e mais cultural, que sua viagem se torna ainda mais intrigante.
Ninguém atravessa desertos por acaso. O que leva homens cercados de cidades, bibliotecas, observatórios e rotas comerciais complexas a seguir uma luz improvável no céu? Não era fé no sentido posterior que os movia, mas a curiosidade cultivada por civilizações treinadas na leitura dos sinais.
Para entender essa jornada, é preciso olhar para as terras de onde vieram, lugares centrais no mapa intelectual do mundo antigo. A mais antiga delas, a Mesopotâmia, situava-se entre o Tigre e o Eufrates, onde hoje estão o Iraque, partes da Síria e da Turquia.
Foi nesse solo que se criou a escrita cuneiforme; que se fixaram as primeiras leis conhecidas, como o Código de Hamurábi; que se registraram mitos, contratos, poemas e tratados; que se inventou a memória durável da humanidade.
Muito antes da filosofia grega, a Mesopotâmia já media o tempo, observava o céu e tratava o firmamento como um texto em movimento.
É desse universo que emergem, ao menos simbolicamente, os magos. Mas sua origem permanece um enigma. O texto antigo apenas diz que eram “homens do Oriente”, expressão ampla o suficiente para abarcar Mesopotâmia, Média, Pérsia, Arábia e regiões próximas à Índia.
Há, porém, um indício decisivo: a palavra “magos” vem do persa antigo maguš, nome dado à casta de sábios ligados ao zoroastrismo, intérpretes do céu, estudiosos de calendários, conselheiros de reis. A origem linguística não garante a geográfica, mas revela afinidade cultural.
A leste da Mesopotâmia começava a Pérsia, equivalente ao atual Irã, um império que reelaborou tradições antigas e lhes deu profundidade espiritual. Essa Pérsia controlava rotas que avançavam para a Índia, o Cáucaso, o Golfo Pérsico e a Ásia Central.
Muito antes de a Rota da Seda ganhar nome, caravanas cruzavam esses caminhos, levando incenso, mirra, ouro, tecidos finos, pigmentos, especiarias e resinas usadas em rituais e funerais. Por essas rotas viajavam também ideias, mitos e cálculos astronômicos.
Nesse contexto, imaginar uma comitiva partindo em busca de um fenômeno celeste extraordinário não é um salto de fé. É quase natural. Esses homens eram treinados para interpretar sinais e seguiam suas suposições. Viajavam não para conquistar, mas para confirmar uma leitura.
Os presentes que levam, ouro, incenso e mirra, não são folclóricos, mas coerentes com esse universo. Representam riquezas materiais de rotas sofisticadas, bens ligados ao culto, ao comércio e à medicina. São uma linguagem silenciosa: não levam palavras, levam substâncias. É o mundo antigo oferecendo ao desconhecido o que tinha de mais precioso.
A arte ocidental percebeu esse encontro como algo maior do que um episódio religioso. Em Giotto, Botticelli e Gentile da Fabriano, a Adoração dos Magos é sempre uma reunião de mundos: cavalos persas, turbantes babilônicos, tecidos árabes, rostos de múltiplas geografias. A pintura parece saber que aquela visita simboliza o instante em que o antigo, ao reconhecer um sinal novo, não recua, mas se inclina com a curiosidade que os sábios reservam ao extraordinário.
A viagem dos magos, vista assim, não se encerra na estrela nem no destino. Ela permanece como um gesto que inaugura uma herança cultural. A do saber que se move, da inteligência que reconhece sinais fora de seus próprios mapas, da disposição de atravessar distâncias para compreender o que ainda não tem nome.
Talvez seja por isso que essa história continue a nos acompanhar, não como resposta, mas como pergunta.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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