
por Marlene Polito
Publicado em 06/08/2025, às 08h19
Quando até o sagrado se indigna
Costumamos imaginar Jesus sereno. Voz baixa, olhar compassivo, gestos calmos como o lago da Galileia. Mas eis que, no meio desse cenário de paz, explode uma cena quase cinematográfica: mesas viradas, cordas em punho, gritos.
Relatada pelos quatro evangelistas, a expulsão dos vendilhões do templo revela um Cristo inflamado. A fúria não brota da vaidade, mas do valor traído. É um terremoto emocional com nome e endereço: ética.
A emoção ali não é perda de controle, mas coragem de agir. É compaixão em chamas. Justiça em movimento. Emoção que vira gesto. Porque, até no mais sereno dos homens, cabe a tempestade.
É o Cristo divino, sim, mas em sua plenitude humana.
Emoção, o que nos move e nos revela
Se algo nos humaniza mais do que a razão, são as emoções. Antes de falarmos, já chorávamos. Antes de compreendermos, já sentíamos.
Elas nos ligam ao outro, na empatia, no riso, na dor silenciosa. Alegram, protegem, alertam. Nenhuma é fútil. Todas têm razão de ser.
E por isso, onde o homem deixou traço, na palavra, na escultura, na música, lá estavam elas, contidas ou explodindo, sempre presentes.

O sentir, também histórico
Ao longo da história, as emoções foram moldadas por cultura, política, fé.
Na Antiguidade grega, por exemplo, havia uma palavra que carregava esse turbilhão em seu núcleo: pathos.
Diferente da ideia moderna de emoção efêmera, o pathos era a própria potência da alma em estado de comoção. Era a dor de Antígona, a ira de Aquiles, a piedade diante do sofrimento alheio. Era experiência partilhada. Era aprendizado ético.
Por isso, chorar na tragédia era mais que natural: era um ato cívico. A emoção compartilhada restabelecia o laço entre o indivíduo e a comunidade, entre o humano e o divino. Naquele instante de silêncio emocionado, o cidadão reafirmava seu lugar na pólis. E, talvez, no universo.
No estoicismo, por outro lado, domar as emoções era sinal de sabedoria. Não se tratava de suprimi-las, mas de purificá-las, até que restasse apenas o que fosse nobre.
Na Idade Média, as emoções oscilavam entre o pecado e o sublime. Chorar o Cristo crucificado expressava virtude; rir sem medida, possível influência demoníaca. Sentir era uma via para Deus, ou para a danação.
Na modernidade, especialmente com René Descartes, as paixões passaram a ser vistas como forças capazes de desviar o juízo racional. Cabia à razão guiá-las, moldando uma alma forte e virtuosa.
Foi preciso que a arte, a literatura e a filosofia romântica reivindicassem de volta o direito de sentir, de estremecer, de gritar, mesmo sem palavras.
E hoje? Ainda sentimos, mas em outro ritmo. A emoção precisa caber num tweet, escorrer por um emoji, durar o tempo de uma notificação. Está presente, mas domesticada. Técnica. Instantânea.
E, mesmo assim, continua sendo o que nos distingue, o que nos move, o que nos revela.
A arte como espelho emocional
Se as emoções moldaram culturas, a arte foi, e ainda é, seu espelho mais fiel. Desde os primeiros traços nas cavernas até as telas digitais de hoje, o que nos move encontra abrigo nas imagens, nos gestos, na música.
A arte registra o que escapa à lógica. Revela o invisível.

Entre pedras, gestos e mãos, há uma serenidade inquieta, o tipo de emoção que não levanta a voz, mas se aloja fundo.

Em Guernica, o horror da guerra é fragmentado em ângulos agudos, gritos calados, olhos arregalados. A dor está ali, mas estraçalhada, como a própria dignidade humana em tempos de violência.

O amor levita em Chagall. Os noivos flutuam no céu de Paris, entre flores, galos e torres, como se a ternura os sustentasse. Não há chão sob os pés, mas há vínculo. Emoção sonhada, mas não por isso menos real.

Quando voltamos novamente à terra, a emoção se encarna. Nesta obra, o corpo está nu, deitado, sem pose nem idealização. A carne pesada, a expressão entre o cansaço e a entrega. O peso do corpo vira o peso da alma.
Emoções, mesmo digitais
Hoje, as emoções continuam entre nós. Mas talvez um pouco mais caladas. Transformadas em códigos, gifs, reações automáticas. A lágrima escorreu da face para o teclado. Virou emoji. Pequeno, brilhante, discreto, quase um sussurro do que um dia foi grito.
Ainda assim, ela está lá.
Quando alguém escolhe esse pequeno símbolo, há algo de Picasso naquela escolha. Algo de Lucian Freud. Algo de nós. Mesmo condensada, acelerada, a emoção insiste. Insiste em querer ser notada, vivida, sentida.
Porque, no fim das contas, o que nos diferencia não é a razão fria nem o cálculo. É a capacidade de sentir, e de transformar esse sentir em gesto, palavra, imagem ou símbolo.
Mesmo mínima. Mesmo muda. A emoção permanece.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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