
por Marina Roveda
Publicado em 04/11/2025, às 08h05
A crise de segurança no Rio de Janeiro, embora seja um desafio doméstico de urgência inquestionável, ascende a um palco internacional. Isso sugere uma teia de interesses geopolíticos dos Estados Unidos no Brasil e na América do Sul. A aparente disposição de Washington em intensificar a cooperação de segurança, pressionando pela classificação de grupos criminosos como organizações terroristas, revela mais do que uma preocupação com o delito transnacional. Indica uma estratégia de reorientação política focada no acesso a recursos.
Essa situação se assemelha à clássica lenda do Rei Midas, que serve de analogia perfeita para o atual dilema das potências globais: o paradoxo de possuir riqueza infinita, mas carecer dos elementos essenciais para a sobrevivência.
Na mitologia grega, Midas pediu aos deuses o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse. Ele se tornou imensamente rico, mas logo descobriu que sua própria comida e bebida se transformavam no metal, condenando-o à fome. Transportando essa metáfora para o cenário global, a análise aponta que o desenvolvimento desenfreado da Robótica e da Inteligência Artificial (IA) enfrenta um problema análogo.
O setor de IA e data centers parece ter acesso a uma quantidade praticamente infinita de capital para o seu desenvolvimento. Contudo, essa tecnologia carece de um fornecimento igualmente ilimitado de energia e de minerais estratégicos. A base computacional e as baterias dependem de recursos que não são produzidos em escala suficiente ou que estão concentrados em regiões geopoliticamente sensíveis.
É nesse ponto que a busca dos EUA por novos fronts se intensifica, primeiramente olhando para o Canadá e Groenlândia, e de forma cada vez mais assertiva, para a América do Sul. O Brasil, rico em commodities, minerais estratégicos, terras raras e energia, torna-se um alvo prioritário. Esses recursos são cruciais para a fabricação de componentes tecnológicos, como ímãs em aeronaves e baterias de alta performance, essenciais tanto para o desenvolvimento da IA quanto para equipamentos de defesa.
A pressão exercida pelo governo do Rio de Janeiro sobre o Presidente norte-americano para que classifique grupos do delito organizado como organizações terroristas se encaixa perfeitamente nesta nova doutrina geopolítica. Se os EUA classificarem um grupo que atua em território brasileiro como terrorista, isso abre caminho para a aplicação de sanções econômicas e, mais importante, para a cooperação direta e o uso de agências federais.
O maior receio é que essa classificação sirva como uma chancela do direito internacional que, alegando ineficácia brasileira no controle de um perigo global, justifique uma atuação militar ou intervenção direta em solo nacional. A história já registrou precedentes, como no Oriente Médio, onde a justificativa de combater o terrorismo (posteriormente refutada) permitiu o controle de territórios estratégicos e o acesso a recursos petrolíferos.
A proposta de resolver a segurança no Brasil com o auxílio americano é vista como um "ímã ideológico" — uma oferta tão sedutora para a população, assolada pela violência, que a maioria estaria disposta a aceitá-la sem questionar o custo.
O preço para erradicar a criminalidade pode ser o enfraquecimento da soberania nacional sobre seu próprio território e suas riquezas. Em suma, o que está em jogo é muito mais complexo do que a segurança pública; é um movimento estratégico no tabuleiro global onde o Brasil, com seus recursos vitais, é uma peça central na corrida tecnológica e geopolítica.
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