
por Marina Roveda
Publicado em 07/11/2025, às 07h33
Nos últimos dias, viralizou a ideia de que o Drex, o Real Digital, teria sido cancelado. Parte do público comemorou acreditando que o dinheiro físico estaria preservado e que o Banco Central teria desistido de vez da moeda digital. Mas, observando a nota oficial do BC e a reportagem do Valor Econômico, o cenário é bem diferente: não houve cancelamento, houve transição.
O Banco Central desativou a plataforma Hyperledger Besu utilizada nos testes iniciais, citando questões de privacidade, escalabilidade e custo. Isso não encerra o projeto — apenas encerra uma fase. Ao descontinuar aquela infraestrutura, o BC abre espaço para outra, possivelmente mais integrada ao setor financeiro e ao mercado internacional, especialmente com o crescimento das stablecoins.
Esse ponto é crucial.
Se o Brasil não desenvolver sua própria arquitetura digital, quem ocupará o espaço serão empresas privadas — muitas delas sediadas em grandes polos tecnológicos globais, como o Vale do Silício. Fintechs internacionais já operam com bilhões em transações usando moedas digitais próprias. Funciona, é rápido e eficiente, mas o controle jurídico e financeiro não é brasileiro.
E aí surge uma questão que poucos estão discutindo: segurança.
No modelo tradicional, existe separação entre compra, pagamento e transferência. No digital, essas etapas podem ocorrer simultaneamente. Isso torna o sistema mais ágil, porém também amplia riscos. Quando o dinheiro muda de mãos instantaneamente e sem intermediários, o número de golpes tende a crescer, especialmente entre usuários menos familiarizados com tecnologia. O próprio Banco Central já reconheceu que uma moeda digital exige mecanismos mais rígidos de autenticação, rastreabilidade e proteção contra fraudes.
Hoje, golpes financeiros acontecem porque o criminoso convence a vítima a transferir.
Com um sistema instantâneo e automatizado, bastariam alguns segundos para um prejuízo irreversível. É por isso que especialistas alertam: qualquer moeda digital precisa vir acompanhada de camadas extras de proteção, não apenas de velocidade.
Por isso, a comemoração de que “o Drex acabou” pode ser precipitada.
O projeto pode voltar com outra tecnologia, outra empresa, outro formato. O Banco Central segue discutindo o tema com o BIS e com bancos internacionais, o que indica que o Brasil não saiu da mesa de negociação — apenas mudou de rota.
A pergunta real não é: “o Drex morreu?”.
A pergunta é: quem vai liderar o futuro do nosso dinheiro?
Se for o Estado, o sistema será público, regido por leis brasileiras, auditável e integrado ao marco regulatório nacional.
Se forem empresas privadas — muitas delas com sede no Vale do Silício ou em outros centros financeiros internacionais — o país continuará no jogo, mas não como protagonista.
O futuro do dinheiro não será decidido em notas de papel.
Será decidido em código, infraestrutura e tecnologia.
E, quando a decisão vier, não será apenas tecnológica — será econômica.
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