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“Todo mundo ganhou”: áudio revela esquema que vira crise interna no São Paulo

Gravação cita dirigentes, menciona ganhos financeiros e força afastamentos

Camarote "3A" do Morumbis - Foto: Reprodução/GE
Camarote "3A" do Morumbis - Foto: Reprodução/GE

Jorge Simonsen Publicado em 15/12/2025, às 14h45


Um áudio obtido hoje pela manhã revela um suposto esquema de comercialização irregular de camarote do Morumbis em dias de shows, envolvendo dirigentes do São Paulo. Na gravação, Douglas Schwartzmann, diretor adjunto das categorias de base, e Mara Casares, diretora feminina, cultural e de eventos do clube, discutem a venda de ingressos de um camarote do estádio e admitem que houve ganho financeiro com a operação.

O conteúdo da conversa levou ambos a pedirem licença de seus cargos na manhã desta segunda-feira (15). Em nota oficial, o São Paulo informou que irá apurar os fatos e que, a partir dessa análise, adotará as medidas cabíveis.

No áudio, Douglas afirma que o camarote foi cedido por Márcio Carlomagno, superintendente geral do clube, para uso de Mara Casares, que posteriormente autorizou a exploração do espaço durante o show da cantora Shakira, realizado em fevereiro deste ano. Carlomagno é um dos principais nomes da atual gestão e aliado próximo do presidente Julio Casares.

O espaço citado na gravação é o camarote 3A, localizado no setor leste do Morumbis, identificado em documentos internos como “sala presidência”. O local fica em frente ao escritório do presidente do clube e costuma ser utilizado para reuniões institucionais e compromissos oficiais.

Segundo o áudio e documentos judiciais aos quais a reportagem teve acesso, o direito de uso do camarote foi repassado a Rita de Cássia Adriana Prado, intermediária responsável por explorar comercialmente o espaço. Os ingressos chegaram a ser vendidos por valores que ultrapassaram R$ 2 mil, e a arrecadação total com o camarote 3A teria alcançado cerca de R$ 132 mil.

A relação entre os envolvidos entrou em crise após Adriana acionar a Justiça. Em junho, a empresa dela ingressou com uma ação contra outra produtora, alegando que ingressos do camarote teriam sido retirados sem autorização no dia do show. A disputa judicial, registrada também em boletim de ocorrência, passou a ser tratada por Douglas e Mara como uma ameaça à exposição do esquema.

Na gravação, Douglas pressiona Adriana a retirar o processo, afirmando que a ação poderia revelar que a exploração do camarote ocorreu de forma irregular. Em diversos trechos, o dirigente reconhece que a prática não seguia os procedimentos normais do clube e demonstra preocupação com as consequências administrativas e políticas do caso.

Em um dos momentos mais sensíveis do áudio, Douglas afirma que houve benefício financeiro para os envolvidos, ao dizer que “todo mundo ganhou”, reforçando que a operação foi feita fora dos padrões formais. Ele também cita que o superintendente Márcio Carlomagno tinha conhecimento da cessão do camarote e poderia ser responsabilizado caso o caso viesse à tona.

Mara Casares, por sua vez, demonstra preocupação com sua trajetória política dentro do São Paulo. Na conversa, ela afirma que pretende seguir ocupando cargos relevantes no clube e que a continuidade do processo judicial poderia comprometer seus planos futuros. A dirigente pede ajuda à intermediária para encerrar a disputa e evitar desgaste institucional.

O São Paulo confirmou que o camarote 3A pertence ao clube e que, na data do show, estava reservado à diretoria feminina, cultural e de eventos. Em nota, o Tricolor afirmou desconhecer o teor do áudio e negou a existência de um esquema ilegal de venda de ingressos, reforçando que os bilhetes destinados ao espaço foram adquiridos diretamente com a produtora do evento.

Após a publicação da reportagem, o clube enviou um novo posicionamento reafirmando que refuta a existência de comercialização clandestina e que não tinha conhecimento de irregularidades no uso do camarote.

Em declaração própria, Mara Casares confirmou que autorizou a cessão do camarote à intermediária, mas negou qualquer benefício financeiro. Segundo ela, a liberação ocorreu em razão de uma relação de confiança e os ingressos teriam sido comprados de forma regular. Mara afirmou ainda que a intermediária repassou o espaço a terceiros sem autorização, o que gerou o conflito judicial.

O superintendente Márcio Carlomagno declarou ter sido surpreendido pela citação de seu nome no áudio e negou que o camarote tenha sido utilizado de maneira clandestina. Ele afirmou que o espaço foi cedido de forma pontual à diretoria responsável por eventos.


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