Diário de São Paulo
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NO BERÇÁRIO

Depois de 37 anos, famílias descobrem que filhas foram trocadas no berçário; drama trouxe união

A história que envolve as duas famílias que tiveram bebês trocadas se revelou com a morte de um homem e a necessidade do inventário

Thaísa, Roberta e Mônica, separadas no berçário e unidas pelo destino - Imagem: reprodução arquivo pessoal
Thaísa, Roberta e Mônica, separadas no berçário e unidas pelo destino - Imagem: reprodução arquivo pessoal

Publicado em 01/08/2022, às 11h58 Jair Viana


Somente depois de 37 anos duas famílias descobriram que houve troca de bebêsna Santa Casa, em 1985. O drama envolve duas famílias, uma de Sertãozinho e outra em Ribeirão Preto, separadas por 25 quilômetros apenas. Duas meninas nasceram no mesmo dia, dividiram o mesmo berçário e geraram uma história com cara de roteiro de novela.

A vida dessas famílias mudou da água para o vinho durante um processo de inventário. Tatiane Ribeiro, hoje com 37, foi registrada como filha do companheiro da mãe dela, Maria de Lurdes, mas era fruto de uma relação anterior da genitora.

Em 2021, quando morreu pai de Mônica, uma confeiteira. Ela achava que realmente era filha biológica dele, pois nunca teve motivos para pensar diferente. Não era. Foi ai que o erro de 37 anos começou a ser desvendado. Para fazer o inventário foi exigido um exame de DNA para comprovar a paternidade. Neste exame veio a surpresa. Aquele a quem chamou de pai a vida toda, não era seu genitor.

O exame que causou espanto a todos da família mostrou que ela não tinha genoma compatível nem com a mãe nem com o suposto pai biológico. Neste momento veio o pensamento sobre a troca dos bebês.

“Quando o laboratório me deu o resultado de incompatibilidade eu não conseguia acreditar. Nunca tivemos nenhuma desconfiança de que eu não fosse filha da minha mãe. Fizemos dois exames, em locais diferentes, para ter a certeza”, diz Mônica Tatiane Ribeiro.

Com o resultado do DNA, Mônica procurou a Santa Casa da cidade, onde havia nascido.  Lá, depois de muita conversa, o hospital revelou que o registro hospitalar documentava que no dia 1º de dezembro de 1985, ela e outras oito meninas haviam nascido na unidade de saúde.

"O hospital foi por exclusão. Viu qual era a outra bebê que havia nascido no horário mais próximo e descobriu que a mãe chamava Maria Regina, nome parecido com o da minha mãe [de criação], que é Maria de Lurdes, e elas tinham a mesma idade", conta Mônica, ainda perplexa.

Depois de uma verificação detalhada de informações, a Santa Casa enviou uma carta para a corretora de imóveis Maria Regina Dias do Nascimento Fernandez, 56, moradora de Ribeirão Preto, cidade vizinha a Sertãozinho — e mãe de Thaísa Nascimento Fernandez, 37, filha biológica de Maria de Lurdes.

O hospital pediu a presença de Regina no hospital. A corretora de imóveis conta que, inicialmente, não deu importância, pois imaginou que o assunto teria relação com o falecimento dos seus pais, anos antes. "Eu imaginei que poderia ser alguma cobrança tardia de quando minha mãe foi hospitalizada e por estar bastante atarefada, demorei uma semana para retornar o contato", disse Regina.

Regina disse que o provedor pediu para ela ir até ao hospital, pois o assunto era importante, não podendo ser tratado por telefone. Mesmo sem entender, Regina pediu uma reunião virtual.

“Quando ele me falou que podia ter ocorrido a troca dos bebês, foi um choque porque jamais imaginei esse tipo de situação. Inicialmente eu duvidei, mas depois fica aquela dúvida. Lembro que eu estava com uma amiga em casa e eu não contei nada para ninguém”, disse.

Após a conversa, a direção do hospital solicitou que Regina e Tatiane fizessem juntas um novo exame de DNA para verificar a compatibilidade de genomas.

Confirmação

Foi ai que aconteceu o primeiro encontro entre Regina e Tatiane. Inicialmente, as duas não acreditavam na troca dos bebês, mas a certeza veio logo na sala de espera. “A nossa semelhança física é notória, quando eu a vi ali, tive a certeza da troca e comecei a chorar”, disse Regina.

O teste de DNA deu 99,9% de compatibilidade da relação biológica entre Regina e Tatiane. Dias depois a filha de Regina, Thaísa, também foi submetida a um exame de DNA junto a Maria de Lurdes e o resultado só confirmou a troca, em 1985.

"Passa um filme na sua cabeça e você começa a lembrar de tudo o que aconteceu naquele dia. Recordo que a minha bebê chegou no quarto sem a pulseira de identificação e quando questionei, a enfermeira ela disse que havia caído", detalha Regina. "É um misto de sensações. Se abre um grande vazio, você fica triste e feliz porque é sua filha, mas, ao mesmo tempo não é. A vida vira de ponta-cabeça", explica.

Doença 

Thaisa, que é filha de Regina, tem epilepsia, doença normalmente tem origem genética, e tem ainda esquizofrenia. Regina conta que os médicos perguntavam sobre essa origem genética e ela nunca teve ideia da resposta, já que ninguém na família desenvolveu as doenças.

Regina é mãe também de Vitória Fernandez, 23. Depois da descoberta da troca dos bebês, a família descobriu que um irmão biológico de Thaisa também sofria da doença, esclarecendo a herança do genoma familiar. Ele faleceu há dois anos.

"Aos quatro meses, Thaisa começou a ter as primeiras crises convulsivas e aos 15, recebeu o diagnóstico de esquizofrenia. Sempre lutei muito e busquei tratamentos médicos para que ela pudesse ter uma vida normal. Hoje ela lê, escreve, anda de bicicleta e patins e tem até um canal no YouTube em que ela ensina a cuidar de peixes, sua paixão", disse Regina.

Depois da descoberta da troca, as famílias se conheceram e hoje se relacionam. Regina conta que ficou feliz em saber que a filha biológica tem três filhos e que Thaisa tem conseguido lidar com a situação.

"Ficamos com medo de ela ter um surto devido a toda essa confusão de sentimentos que a situação nos expõe. Mas é como eu costumo falar: as pessoas chegam na nossa vida para somar e assim será com Tatiane e com toda a família dela", diz. A Santa Casa não quis se manifestar sobre o caso, alegando se tratar de um processo sigiloso.

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