Conar avalia se comercial da VW engana o público através de inteligência artificial

Marina Roveda Publicado em 11/07/2023, às 07h28
O Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar) iniciou uma representação ética contra a campanha publicitária "VW Brasil 70: o novo veio de novo", criada pela Volkswagen do Brasil em parceria com a agência AlmapBBDO. A campanha, lançada em 3 de julho, recriou digitalmente a imagem da saudosa cantora Elis Regina, falecida em 1982, para que ela pudesse cantar em dueto com sua filha, Maria Rita, a música "Como Nossos Pais", de Belchior.
O Conar decidiu abrir a representação após receber denúncias de consumidores, os quais questionam se é ético utilizar ferramentas tecnológicas e inteligência artificial (IA) para trazer pessoas falecidas de volta à vida, como foi feito na campanha. Além disso, os denunciantes levantam preocupações sobre a possibilidade de confusão entre ficção e realidade, especialmente para crianças e adolescentes. O Conar resguarda a identidade dos denunciantes, conforme previsto na Lei Geral de Proteção de Dados.
Os denunciantes também expressam desconforto em relação à emoção provocada pelo comercial. Em uma das denúncias enviadas ao Conar, o advogado Gabriel de Britto Silva menciona a ausência de informação sobre se Elis Reginateria autorizado o uso de sua imagem, principalmente para fins comerciais em uma campanha de uma fabricante de automóveis.
"Não se sabe sequer se viva fosse, a Elis autoriza a imagem, ainda mais para fabricante de automóveis e para fins estritamente comerciais", diz parte do texto.
Silva argumenta que o uso de ferramentas como inteligência artificial e deep fake, utilizada para recriar o rosto e os movimentos de Elis com o auxílio de uma atriz, precisa ser discutido pela sociedade e regulamentado pelos órgãos competentes. Ele enfatiza que a tecnologia não traz as pessoas falecidas de volta e que é responsabilidade dos seres humanos que operam essas máquinas serem regulados por aqueles que sofrem as consequências dessa operação, a fim de evitar efeitos imprevisíveis.
"A tecnologia não traz as pessoas falecidas de volta. Cabem aos vivos que operam as máquinas serem regulados pelos vivos que recebem a consequência dessa operação, sob pena dos efeitos serem mais imprevisíveis do que a mais avançada tecnologia pode supor", diz outro trecho da denúncia.
Outro ponto mencionado na representação diz respeito ao fato de a propaganda mostrar Maria Rita e Elis dirigindo de forma desatenta ao volante, o que infringe as regras do Código do Conar. O código determina que os anúncios de automóveis não devem conter sugestões de utilização do veículo que possam colocar em risco a segurança pessoal do usuário e de terceiros, como o desrespeito às normas de trânsito.
"Na propaganda de automóveis [...] Não se permitirá que o anúncio contenha sugestões de utilização do veículo que possam pôr em risco a segurança pessoal do usuário e de terceiros, tais como [...] desrespeito [...] às normas de trânsito de uma forma geral."
O Conar tem o prazo de até 45 dias para julgar as representações. O Estadão entrou em contato com a assessoria de imprensa da Volkswagen para obter o posicionamento da empresa em relação à representação aberta contra a campanha publicitária.
O comercial da Volkswagen, com aproximadamente dois minutos de duração, dividiu opiniões sobre o uso da imagem de Elis Regina, bem como a utilização da música "Como Nossos Pais", de Belchior, que ficou consagrada na voz da cantora.
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