
por Cristiano Medina da Rocha
Publicado em 14/02/2025, às 09h19
Em 02 de dezembro de 2025 comemora-se 200 anos de nascimento do Imperador Dom Pedro II, para os amantes da história fica a reflexão, caso a República não tivesse sido proclamada o Brasil teria tido um futuro mais prospero?
A história é cheia de caminhos não percorridos, de decisões que poderiam ter sido diferentes e de consequências que poderiam ter sido evitadas. A Proclamação da República no Brasil, em 1889, é um desses momentos em que um conjunto de escolhas – ou a falta delas – determinou um destino que talvez não fosse o melhor para o país. Diferente do que muitos imaginam, a República não foi uma exigência popular, nem o desdobramento inevitável de um processo democrático. Foi, na verdade, um golpe militar, conduzido por oficiais insatisfeitos e apoiado por uma elite econômica ressentida. E se Dom Pedro II tivesse agido para evitar a queda da monarquia? E se, em vez da República, o Brasil tivesse feito a transição para um parlamentarismo moderno sob um novo monarca? Teríamos evitado as crises, os golpes e a instabilidade que marcaram nosso século XX?
Dom Pedro II foi um dos monarcas mais respeitados de seu tempo. Educado, intelectual e admirado internacionalmente, governou o Brasil por quase meio século. Mas, apesar de suas qualidades, falhou no principal desafio de um líder político: manter a sustentação de seu governo. Durante anos, governou como se a monarquia fosse eterna, como se não houvesse ameaças ao regime, como se sua popularidade fosse suficiente para impedir que o país fosse tomado por um novo sistema. Quando o golpe republicano aconteceu, a monarquia já estava sem base de apoio.
Os primeiros sinais de sua fragilidade surgiram com a Abolição da Escravidão, em 1888. A escravidão era um problema moral e social que precisava ser resolvido, e o fim desse sistema era inevitável. O Brasil foi um dos últimos países no Ocidente a abolir a escravidão. A abolição tardia no Brasil se deve a vários fatores, incluindo a forte dependência econômica do trabalho escravo nas plantações de café e a resistência de setores poderosos da sociedade que se beneficiavam diretamente da escravatura. O governo imperial falhou em administrar a transição. A monarquia poderia ter implementado um modelo de reforma agrária ou oferecido compensações econômicas aos fazendeiros, o que certamente não era moral, como ocorreu em outros países, mas poderia ter evitado que a elite rural não migrasse para o lado dos republicanos. Em vez disso, a abolição veio de maneira abrupta, sem um plano econômico ou social de adaptação. O resultado foi a traição da aristocracia rural, que passou a financiar o Partido Republicano e apoiar a queda do Império.
Além da questão agrária, um ponto crucial foi a falta de políticas para acolher a população recém-liberta. O Império poderia ter implementado programas de inserção dos ex-escravizados na sociedade, oferecendo educação, moradia e oportunidades de trabalho. Em países como os Estados Unidos, apesar de todas as dificuldades da Reconstrução pós-Guerra Civil, houve políticas voltadas à integração da população negra. No Brasil, porém, os libertos foram simplesmente deixados à própria sorte, sem qualquer suporte do Estado. Essa omissão teve reflexos profundos e duradouros, perpetuando desigualdades sociais que permanecem até hoje.
Ao mesmo tempo, o Exército estava insatisfeito. Desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), os militares se sentiam desprestigiados. Lutaram, morreram e voltaram vitoriosos, mas não encontraram o reconhecimento que esperavam. O Império ainda favorecia a Guarda Nacional e mantinha uma estrutura de poder que deixava os oficiais sem influência política. Com o tempo, o Exército se tornou o núcleo de uma conspiração republicana. Oficiais como Benjamin Constant passaram a espalhar ideais positivistas, e figuras como Deodoro da Fonseca, que era inicialmente monarquista, foram convencidas a aderir ao golpe. Se Dom Pedro II tivesse reformado as Forças Armadas, prestigiado os combatentes e integrado os militares ao governo, a monarquia poderia ter contado com a lealdade do Exército. Mas ele ignorou o problema.
E, por fim, o erro mais grave: a falta de um sucessor viável. O Imperador já estava velho e doente. Sua única filha, a Princesa Isabel, era a legítima herdeira, mas nunca teve aceitação política. Seu marido, o Conde d’Eu, era visto com desconfiança pela elite, e sua associação com a abolição da escravidão afastou ainda mais os fazendeiros.
Seu outro possível sucessor, o neto Pedro Augusto, “O Principe Maldito”, retratado na obra de Mary Del Priore, sofria de problemas psiquiátricos e não teria condições de governar. O trono precisava de um nome forte, que pudesse unir o país e modernizar a monarquia.
Entre os possíveis herdeiros, Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança seria aparentemente a melhor escolha. Neto de Dom Pedro II, filho da Princesa Leopoldina, nascido no Brasil e oficial da Marinha, ele reunia as qualidades que poderiam ter salvo a monarquia. Como militar, teria sido bem aceito pelas Forças Armadas e poderia ter barrado a adesão dos oficiais ao republicanismo. Como jovem e dinâmico, representaria uma renovação da monarquia, afastando a imagem desgastada de um império envelhecido.
Para isso, no entanto, seria necessária uma alteração na Constituição de 1824, que previa a sucessão apenas pelos descendentes diretos do Imperador. Dom Pedro II poderia ter promovido uma reforma constitucional por meio do Parlamento, instituindo um novo critério para a sucessão que permitisse a escolha de um herdeiro mais adequado ao momento político do país. Se tivesse feito isso a tempo, poderia ter neutralizado as críticas à Princesa Isabel e fortalecido a aceitação da monarquia entre as elites e os militares.
O Brasil poderia ter seguido o modelo do Reino Unido, onde o rei tem um papel simbólico e o governo é conduzido pelo parlamento. Teríamos um sistema mais equilibrado, menos propenso a golpes e crises institucionais.
A Primeira República não foi um período de progresso imediato. Pelo contrário, foi marcada por fraudes eleitorais, domínio oligárquico e instabilidade política. Governos se sucediam sem legitimidade, e as crises se acumulavam. O país passou por diversas rupturas: revoltas, ditaduras, golpes militares e constantes reorganizações institucionais. O presidencialismo brasileiro nunca encontrou estabilidade, e a política nacional se tornou refém de disputas entre grupos de poder.
Se a monarquia tivesse continuado sob um modelo parlamentarista o Brasil poderia ter tido um desenvolvimento mais estável, sem tantos altos e baixos políticos; as Forças Armadas poderiam ter sido modernizadas sem precisar recorrer a golpes militares para ganhar espaço político; a transição para o trabalho livre poderia ter sido mais célere e organizada, evitando a marginalização da população recém-liberta; o país teria se posicionado melhor no cenário internacional, atraindo mais investimentos e evitando as crises econômicas que marcaram o século XX.
Olhamos para países que mantiveram suas monarquias e vemos sociedades mais equilibradas. Reino Unido, Canadá, Japão, Suécia, Noruega – todas essas nações modernizaram suas monarquias e encontraram estabilidade. No Brasil, optamos por um modelo republicano que, até hoje, enfrenta dificuldades para consolidar uma democracia forte e funcional.
A monarquia caiu porque seus alicerces foram minados. Dom Pedro II perdeu o apoio da elite agrária, afastou os militares e não preparou um sucessor adequado. Mas isso não significa que sua queda fosse inevitável. Se tivesse tomado medidas estratégicas, poderia ter evitado o golpe de 1889. Se Augusto Leopoldo tivesse sido preparado para assumir o trono e a monarquia tivesse se reformado para um parlamentarismo moderno, o Brasil poderia ter seguido um caminho mais próspero e menos turbulento.
Mais de um século depois, continuamos a viver as consequências dessa escolha. A história não permite voltar atrás, mas nos ensina a refletir sobre os caminhos que escolhemos – e sobre aqueles que deixamos de escolher.
Destarte, entre erros e acertos é hialino que Dom Pedro II foi um monarca notavelmente culto e progressista, cujas qualidades pessoais e profissionais tiveram um impacto profundo no desenvolvimento do Brasil. Dedicado à educação e às ciências, ele incentivou a modernização do país através do suporte a iniciativas que abrangiam desde a construção de ferrovias até o patrocínio de artistas e cientistas. Sua governança foi marcada pela estabilidade política e pelo crescimento econômico, além de ter uma visão de futuro que colocava o Brasil no diálogo internacional. Ao celebrarmos os 200 anos do nascimento de Dom Pedro II, reconhecemos não apenas suas notáveis qualidades de liderança, mas também o legado duradouro de seu compromisso com o bem-estar e avanço de sua nação.
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