
por Ap. Queila C Martines
Publicado em 22/04/2026, às 08h00
Ela chegou à mentoria com uma frase que ouço há mais de trinta anos:
“Eu sei que Deus me ama. Mas, no fundo, acho que sou difícil demais. Que as pessoas acabam se cansando de mim.” Ela tinha quarenta e dois anos, uma fé sólida, uma Bíblia cheia de grifos, e uma ferida que nenhuma promessa tinha alcançado.
Porque essa ferida não é teológica. É vincular. E a diferença entre essas duas coisas muda tudo.
Quando o amor na infância era condicional, dado quando você se comportava bem e retirado quando decepcionava, a criança aprende uma lição que carrega por décadas: eu preciso merecer o amor. E, se ele vai embora, a culpa é minha. Essa criança cresce. Vira mulher. E, quando a vida aperta, o mapa antigo acorda: o problema sou eu.
O que aconteceu com você foi real. Mas a interpretação que uma criança fez daquela dor, “isso aconteceu porque há algo de errado comigo”, não é verdade. É uma mente pequena tentando dar sentido a uma dor grande demais. Ela concluiu que o problema era ela. E essa conclusão ficou. Até hoje.
Jesus escolheu a mulher samaritana, aquela que buscava água sozinha, no meio do dia, para a conversa teológica mais profunda dos Evangelhos. Ele não começou com o diagnóstico dos erros. Começou pedindo água. O encontro com o amor verdadeiro não a envergonhou. A libertou.
A cura começa com uma pergunta: essa crença que tenho sobre mim, ela é minha ou me foi dada?
Você não é difícil de amar. Você foi amada de formas que não eram amor de verdade. Marcas não são destino, são o ponto de partida da história que ainda vai ser escrita.
Você foi criada para ser inteira, não perfeita.
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