Ao priorizar celebridades e declarações provocativas, a mídia redefine quem merece destaque e reforça um apagamento histórico de mulheres que constroem ciência, cultura e transformação social.

Rachel Sheherazade Publicado em 16/02/2026, às 19h09
A revista Veja destacou uma influenciadora ligada a jogos de azar como a mulher mais relevante do Brasil, gerando críticas sobre a escolha editorial que desvaloriza contribuições significativas de mulheres em diversas áreas. Essa decisão reflete um padrão na mídia que prioriza a superficialidade em detrimento de realizações intelectuais e sociais.
Apesar da presença de mulheres brilhantes em ciência, política e arte, a atenção da mídia frequentemente recai sobre figuras que se encaixam em modelos de entretenimento, como influenciadoras com grande número de seguidores. Isso resulta em uma invisibilidade de mulheres que realmente fazem a diferença, como a cientista Tatiana Sampaio, que pesquisa a recuperação de movimentos em tetraplégicos.
A situação atual demanda uma reflexão sobre os critérios de relevância utilizados pela mídia, sugerindo a necessidade de ampliar o foco para incluir histórias e conquistas que vão além da superficialidade. A relevância não deve ser medida apenas pela audiência, mas também pelo impacto real na sociedade.
Algo de errado não está certo no Brasil.
A revista Veja, um dos veículos mais influentes do país, abriu espaço generoso na editoria GENTE para dar voz ao neto de um bicheiro, atual presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, que declarou: “Não há mulher tão relevante no Brasil como Virgínia”.
A frase virou título. A imagem da matéria não era do entrevistado, mas da própria influenciadora, em um claro movimento de apelo visual.
Não se trata apenas de uma escolha editorial. Trata-se de um padrão.
Há décadas, a mídia decide o que é relevante, quem merece horário nobre, quais temas serão discutidos e quais serão ignorados. Ela constrói heróis, destrói reputações, legitima discursos e silencia outros. Define o que deve ser admirado e o que deve ser esquecido.
Quando uma revista sugere que a mulher mais relevante do país é uma influenciadora ligada a jogos de azar, a mensagem simbólica é poderosa. Ela diminui, por contraste, todas as mulheres que constroem relevância no pensamento, na ciência, na política, na arte, no esporte e na literatura.
O Brasil tem mulheres brilhantes em todas as áreas do conhecimento. Ainda assim, o foco recai, com frequência, sobre rostos, corpos e números de seguidores.
Mulheres independentes, intelectualmente ativas e protagonistas de suas próprias histórias raramente ocupam as capas e os destaques. Não porque não existam, mas porque não se encaixam no modelo de entretenimento dominante.
Enquanto isso, histórias como a da cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, passam praticamente despercebidas. Há 28 anos, ela pesquisa formas de ajudar pessoas tetraplégicas a recuperar movimentos. Seu trabalho envolve a descoberta de uma proteína capaz de regenerar conexões entre neurônios — uma linha de pesquisa com potencial impacto internacional.
Tatiana resumiu o incômodo em uma frase: “Quando uma mulher faz ciência, o incômodo é o fato de ela ocupar um espaço que disseram não ser dela”.
Ao longo da história, mulheres tiveram créditos apagados, contribuições minimizadas e protagonismos sequestrados. A cobertura midiática, muitas vezes, reforça essa invisibilidade ao priorizar o superficial em detrimento do estrutural.
Por isso, é preciso olhar além do que é oferecido como relevante. Questionar critérios. Rever prioridades. E, principalmente, ampliar o campo de visão.
Relevância não deveria ser medida apenas por audiência.
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