
por Carlos Ventura
Publicado em 03/06/2025, às 13h14
Sábado Santo, 19 de abril de 2025. Meu relógio marcava onze e meia da manhã. Estava na Praça José Bonifácio, em frente à Catedral Metropolitana de Campinas. Havia comido um acarajé, depois de acompanhar o cortejo da lavagem das escadarias da igreja. O numeroso grupo de religiosos vestidos de branco, dançando, batucando e cantando, saiu da Estação Cultura e desceu a Rua 13 de Maio, como acontece tradicionalmente há 40 anos.
Assistia à cerimônia em meio a centenas de pessoas. Algumas céticas, a maioria admirada e energizada pela beleza, a grandiosidade e a força emanadas pela dança, o som dos tambores e cantos em homenagem a Nossa Senhora da Conceição e aos povos Bantus, etnia predominante entre os negros escravizados trazidos para o Brasil entre os séculos 16 e 19.
Enquanto via, ouvia e sentia tudo aquilo, fiquei arrepiado e fui tomado por uma forte emoção repentina. Comecei a tremer. Em seguida, senti uma lágrima brotando no meu olho. Não era uma lágrima de alegria ou tristeza. Era produzida por um misto de sentimentos. O orgulho e a sensação inequívoca de pertencimento se misturavam a uma nuance de dor e impotência. Vozes sussurravam pedindo para que eu levantasse a cabeça, continuasse resistindo e seguindo em frente.
Minutos depois, quando voltava pra casa e refletia sobre o ocorrido, entendi o que havia acontecido. Após baixar a adrenalina, me dei conta de que aquela lágrima não era minha. Um negro escravizado chorava dentro de mim.
Ele estava feliz por ouvir tambores e vozes que o conectavam às suas raízes e pelos avanços conquistados desde o fim oficial da escravidão, no século 19, à custa do sangue de negros como Dandara e Zumbi dos Palmares.
Por outro lado, sofria ao refletir sobre as consequências devastadoras do racismo, que limita, exclui, machuca, silencia, tortura e mata homens e mulheres negras todos os dias no nosso país.
Quando Mãe Dango e Mãe Corajacy fundaram a Lavagem das Escadarias da Catedral, em 1985, a situação era pior. O racismo era escancarado e os crimes de intolerância religiosa eram considerados tão normais que mal apareciam nos jornais e noticiários de rádio e tevê.
Durante sua fala no evento, Mãe Dango lembrou dos avanços conquistados nessas quatro décadas. ”Se hoje as pessoas podem caminhar pela cidade e andar de ônibus usando fio de contas [também chamado de guia, é um colar utilizado por adeptos de religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda], é graças a esse movimento que iniciamos há 40 anos”, disse a sacerdotisa.
Apesar das conquistas, Mãe Dango, Mãe Cora, Mãe Jacira, todas as mães, pais, filhos de santo e militantes da luta antirracista sabem que, enquanto houver um escravizado, mesmo que aprisionado no corpo de um negro “livre”, haverá resistência e luta em busca de paz, respeito e igualdade.
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