
por Agenor Duque
Publicado em 25/02/2025, às 09h01
Em um gesto que está causando controvérsia e dividindo opiniões, os ex-comandantes do Exército, General Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, serão homenageados com a controversa medalha 'Não Fizeram Mais Que a Obrigação'. A condecoração, marcada por um tom irônico, busca reconhecer o que seria o “heroico esforço” de ambos ao simplesmente cumprirem o que a Constituição já determina.
A homenagem ocorre em meio às revelações de que, nos meses finais do governo Jair Bolsonaro, tanto o Exército quanto a Aeronáutica resistiram a supostas tentativas de envolvimento em ações para questionar o resultado das eleições. De acordo com investigações da Polícia Federal, Bolsonaro teria buscado apoio das Forças Armadas para investigar possíveis irregularidades eleitorais, mas apenas a Marinha, sob comando de Almir Garnier, mostrou-se receptiva ao diálogo. Já o Exército e a Aeronáutica optaram por não se envolver.
Neutralidade ou omissão?
A decisão de Freire Gomes e Baptista Junior de não se envolverem em um debate que mobilizou milhões de brasileiros é vista com diferentes lentes. Para alguns setores, isso representa uma postura institucionalista e apartidária. Para outros, soa como omissão diante de um cenário de incertezas eleitorais.
“Recusamos participar porque estávamos ocupados com atividades estratégicas, como pintar meios-fios”, afirmou um oficial sob anonimato, em tom sarcástico. A declaração, embora carregada de humor, levanta questionamentos sobre as prioridades das Forças Armadas em um momento delicado para a democracia brasileira.
A recusa em aprofundar investigações sobre possíveis fraudes eleitorais pode ser interpretada como um posicionamento político disfarçado de neutralidade. Ao evitar qualquer envolvimento, as lideranças militares deixaram Bolsonaro “a ver navios” e, na prática, abandonaram milhões de eleitores que questionavam a transparência do processo eleitoral.
Questionamentos sobre a eleição e o papel das Forças Armadas
O episódio reacende o debate sobre o papel das Forças Armadas na garantia de eleições limpas e transparentes. A Constituição determina que os militares sejam garantidores da lei e da ordem, o que inclui a segurança do processo eleitoral. Para críticos, ao adotar uma postura de não envolvimento, os comandantes homenageados teriam falhado na missão de investigar as alegações de fraude.
Esse ponto é enfatizado por aliados de Bolsonaro, que questionam o motivo de Exército e Aeronáutica não terem seguido a mesma linha da Marinha, que demonstrou maior disposição em apoiar investigações. “Não se trata de golpe, mas de assegurar a lisura do processo. Fugir desse dever é que é politizar a questão”, argumenta um parlamentar bolsonarista.
O significado da medalha “Não Fizeram Mais Que a Obrigação”
A criação da medalha “Não Fizeram Mais Que a Obrigação” é vista por muitos como um gesto de deboche, cujo objetivo é desmerecer a postura dos ex-comandantes. Em vez de exaltar uma suposta defesa da democracia, a homenagem reforça a narrativa de que cumprir a Constituição seria um ato excepcional, quando, na verdade, deveria ser a norma.
Para críticos do governo atual, a medalha não passa de uma provocação política. “Estão premiando a omissão com ironia, como se manter-se inerte diante de um cenário de dúvidas fosse um grande feito”, alfineta um líder da oposição.
Reações divididas e politização das Forças Armadas
A decisão de homenagear Freire Gomes e Baptista Junior já gera repercussão entre militares da ativa e da reserva. Alguns enxergam a homenagem como um incentivo à neutralidade, enquanto outros veem como um alerta contra qualquer envolvimento em questões políticas, mesmo quando se trata de garantir a transparência eleitoral.
O episódio parece mais uma evidência da tentativa de politizar as Forças Armadas, usando a narrativa de defesa da democracia para deslegitimar questionamentos legítimos sobre o processo eleitoral. “Estão usando as instituições para validar um resultado eleitoral que não foi suficientemente esclarecido”, criticam alguns.
O legado da neutralidade e os desafios futuros
A entrega da medalha “Não Fizeram Mais Que a Obrigação” marca um momento de inflexão na história das Forças Armadas no Brasil. Ao mesmo tempo em que se celebra uma postura constitucionalista, também se cria um precedente de passividade diante de crises políticas.
O episódio deixa uma pergunta no ar: ao se absterem de participar de um debate tão relevante, Exército e Aeronáutica garantiram a democracia ou simplesmente evitaram o desgaste político? Para apoiadores de Bolsonaro, a resposta é clara: faltou coragem para enfrentar o establishment e defender a transparência eleitoral.
A honraria pode até carregar um tom irônico, mas escancara as divisões que ainda persistem na sociedade brasileira sobre o papel das Forças Armadas e o legado do governo Bolsonaro. A história julgará se a escolha da neutralidade foi sábia ou simplesmente conveniente.
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