Conteúdos produzidos em massa misturam imagens chamativas, histórias sem sentido e músicas repetitivas para prender a atenção infantil, enquanto especialistas questionam a falta de identificação e os efeitos da exposição prolongada.
Ana Beatriz Silva Publicado em 26/07/2026, às 09h00
Vídeos com animais que agem como seres humanos, personagens que mudam de aparência durante a mesma história, músicas com palavras incompreensíveis e animações sem qualquer lógica estão ocupando cada vez mais espaço entre os conteúdos recomendados para crianças no YouTube.
Grande parte desses vídeos apresenta indícios de ter sido criada total ou parcialmente por ferramentas de inteligência artificial. O problema é que muitos deles não informam ao público que houve utilização da tecnologia, apesar das falhas visuais, mudanças repentinas de voz, movimentos incomuns e narrativas que não possuem começo, desenvolvimento ou conclusão.
Em um teste realizado pela BBC News Brasil, conteúdos aparentemente produzidos com IA começaram a surgir depois de aproximadamente 15 minutos de navegação em vídeos curtos. As pesquisas iniciais envolviam assuntos populares entre crianças, como Roblox, Minecraft e animais. Em outro levantamento citado pela reportagem, uma sessão iniciada a partir de um vídeo do canal infantil CoComelon indicou que mais de 40% dos conteúdos assistidos pareciam conter imagens geradas artificialmente.
Os vídeos fazem parte de um fenômeno conhecido como “AI slop”, expressão usada para descrever conteúdos digitais de baixa qualidade, produzidos rapidamente e em grande quantidade com ferramentas de inteligência artificial. A estratégia costuma combinar cores intensas, músicas repetitivas, personagens conhecidos, cenas aceleradas e títulos chamativos para aumentar o tempo de permanência na plataforma.
Pesquisa brasileira encontrou milhares de vídeos
Um estudo desenvolvido pelo professor André Mintz, da Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com a pesquisadora Juno Bozzi, analisou a presença de vídeos infantis produzidos com IA em português e inglês.
O levantamento partiu de uma base com aproximadamente 17 mil vídeos publicados entre 2022 e 2024 e encontrados por meio de pesquisas relacionadas à inteligência artificial e ao universo infantil. Os pesquisadores identificaram principalmente conteúdos musicais, adaptações de histórias, vídeos religiosos e produções apresentadas como educativas.
Entre os materiais analisados havia vídeos praticamente inteiros produzidos por IA e outros que utilizavam a tecnologia apenas em cenários, personagens, vozes ou partes da animação. Também foram encontrados tutoriais que ensinavam criadores a produzir vídeos infantis automaticamente como estratégia de monetização.
O próprio estudo ressalta que ainda não é possível medir com precisão a quantidade total desses vídeos na plataforma. A pesquisa também não comprova que o uso da inteligência artificial, isoladamente, cause prejuízos ao desenvolvimento infantil. O alerta está relacionado principalmente à baixa qualidade, à exposição prolongada, à produção em massa e à ausência de narrativas adequadas para cada faixa etária.
Especialistas alertam para confusão entre realidade e fantasia
Pesquisadores e profissionais ligados ao desenvolvimento infantil demonstram preocupação principalmente com crianças mais novas, que ainda estão formando sua compreensão sobre o mundo e desenvolvendo habilidades relacionadas à atenção, à autorregulação e à distinção entre realidade e fantasia.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, vídeos com mudanças rápidas, cenas incoerentes e informações contraditórias podem sobrecarregar a capacidade infantil de processar o que está sendo exibido. O risco aumenta quando esse consumo substitui atividades importantes, como brincar, dormir, conversar com outras pessoas e explorar situações reais com diferentes sentidos.
A preocupação não está necessariamente na presença da inteligência artificial. Um vídeo produzido com apoio de IA pode ser educativo, criativo e adequado à idade. O problema aparece quando a tecnologia é utilizada para gerar conteúdos automaticamente, sem revisão humana, coerência narrativa, responsabilidade pedagógica ou preocupação com a experiência da criança.
Entidades de proteção infantil também argumentam que crianças pequenas não possuem condições de avaliar se um vídeo é confiável, educativo ou artificial. Cores fortes, músicas animadas e movimentos constantes podem capturar a atenção mesmo quando o conteúdo não possui significado ou apresenta informações incorretas.
Mais de 200 entidades cobram mudanças do YouTube
Em abril de 2026, mais de 200 organizações, educadores, psiquiatras infantis e especialistas em desenvolvimento enviaram uma carta aos responsáveis pelo Google e pelo YouTube cobrando medidas contra a disseminação de vídeos infantis de baixa qualidade feitos com IA.
O grupo pediu que conteúdos gerados artificialmente sejam claramente identificados, deixem de ser recomendados para menores de idade e possam ser bloqueados pelos responsáveis. As entidades também defenderam a proibição desse tipo de produção dentro do YouTube Kids.
Para os especialistas, apenas inserir um aviso escrito pode ser insuficiente, já que parte do público infantil ainda não sabe ler ou não compreende o significado de uma identificação sobre conteúdo sintético.
Regras ainda deixam espaço para vídeos sem identificação
O YouTube determina que criadores informem quando publicam cenas realistas que foram alteradas ou produzidas artificialmente. A plataforma também pode aplicar seus próprios avisos e penalizar canais que repetidamente deixarem de identificar conteúdos sintéticos.
No entanto, as regras atuais não exigem necessariamente a identificação de animações ou cenas claramente fantasiosas. Essa exceção atinge justamente uma parcela significativa dos vídeos voltados para crianças, que utilizam animais falantes, personagens fictícios e universos irreais.
A própria plataforma classifica como conteúdo infantil de baixa qualidade vídeos difíceis de acompanhar, histórias sem começo, meio e fim, áudios ininteligíveis, falsas promessas educativas e produções resultantes de geração automática em massa. Canais que concentram esse tipo de material podem perder monetização ou ser suspensos do Programa de Parcerias do YouTube.
O YouTube afirma que possui critérios mais rigorosos para vídeos destinados ao público infantil e diz limitar, dentro do YouTube Kids, conteúdos feitos por IA a um grupo reduzido de canais considerados de alta qualidade. A empresa também declarou que combater materiais repetitivos e de baixa qualidade está entre suas prioridades para 2026.
Apesar das medidas anunciadas, pesquisadores apontam que a identificação automática continua sendo um desafio. A facilidade para produzir centenas de vídeos em pouco tempo permite que novos canais e conteúdos surjam mais rapidamente do que a capacidade de análise das plataformas.
O debate, portanto, vai além da utilização da inteligência artificial. A principal questão é como impedir que ferramentas capazes de ampliar a criatividade também sejam usadas para transformar a atenção infantil em uma linha de produção de visualizações, anúncios e receita.