Casos recentes de violência levantam suspeita sobre a falta de proteção dentro das plataformas
Gabriela Nogueira Publicado em 17/09/2025, às 18h12
O Ministério Público Federal (MPF) iniciou uma investigação com o objetivo de verificar se os aplicativos de relacionamento destinados à comunidade LGBTQIA+, como Grindr e Hornet, estão implementando medidas adequadas para garantir a segurança de seus usuários. A medida surge em resposta a um aumento significativo de crimes, incluindo roubos, extorsões e homicídios, ocorridos em várias cidades brasileiras, com foco em São Paulo.
Conforme exposto pelo procurador da República Lucas Costa Almeida Dias, que lidera o procedimento investigativo, os delitos perpetrados por meio desses aplicativos são considerados uma questão séria de segurança pública. A situação se torna ainda mais alarmante quando as vítimas pertencem ao público LGBTQIA+, que frequentemente enfrenta um cenário de vulnerabilidade exacerbada por preconceitos e atos motivados por ódio.
O procurador destacou dois fatores que favorecem a atuação criminosa: o medo das vítimas em realizar denúncias e a falta de cautela no compartilhamento de informações pessoais. Para Dias, as plataformas digitais têm demonstrado ineficiência na adoção de medidas eficazes de proteção aos usuários.
Até o momento, tentativas de contato com as empresas Hornet e Grindr para obter uma posição oficial não resultaram em respostas.
A investigação do MPF também se baseia em um recente julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), que estabeleceu um "dever de cuidado" às plataformas digitais. Isso implica que as empresas devem adotar uma postura proativa na remoção de conteúdos que promovam discriminação por motivos de raça, sexualidade ou identidade de gênero.
Um levantamento realizado pelo MPF revela que tanto Grindr quanto Hornet já possuem termos específicos de serviço no Brasil, que incluem cláusulas sobre a responsabilização da empresa e comprometimentos em aprimorar suas medidas de segurança.
No âmbito da investigação, ofícios foram encaminhados à Secretaria Nacional de Direitos LGBTQIA+, ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, bem como às empresas responsáveis pelos aplicativos, solicitando informações pertinentes ao caso.
Casos Recentes na Região do Sacomã
Entre fevereiro e maio do ano anterior, uma série alarmante de pelo menos nove assaltos e tentativas na região do Sacomã, Zona Sul de São Paulo, foi reportada. As vítimas relataram que após agendarem encontros através dos aplicativos Grindr ou Hornet, foram atraídas para áreas isoladas e abordadas por criminosos armados em motocicletas.
Os assaltantes tinham como alvo principal os celulares das vítimas, além de objetos como cartões, fones de ouvido e até calçados. Em alguns casos, as vítimas foram forçadas a revelar senhas e tiveram seus aplicativos bancários utilizados para transações indevidas. Um dos jovens foi agredido por não conseguir lembrar a senha do dispositivo; outro quase perdeu a vida ao tentar resistir à abordagem.
Essa série criminosa coincide com o assassinato do jovem Leonardo Rodrigues Nunes, de 24 anos, ocorrido em julho na mesma área. Ele foi morto após marcar um encontro por meio de um aplicativo de relacionamento.
"O ódio é direcionado contra pretos, pobres e gays", declarou o pai do jovem assassinado, evidenciando a gravidade da situação enfrentada pela comunidade LGBTQIA+ no Brasil.