Lenacapavir aplicado a cada seis meses registrou apenas uma nova infecção durante a extensão de dois grandes estudos clínicos, mas medicamento ainda não está disponível no SUS.
Ana Beatriz Silva Publicado em 22/07/2026, às 14h38
Novos dados sobre o lenacapavir reforçam o potencial da primeira profilaxia pré exposição contra o HIV administrada apenas duas vezes por ano. Durante mais um ano de acompanhamento dos estudos PURPOSE 1 e PURPOSE 2, nenhuma nova infecção foi registrada na extensão do primeiro levantamento e apenas uma ocorreu entre os participantes que continuaram recebendo o medicamento no segundo.
Os resultados preliminares foram divulgados antes da AIDS 2026, a 26ª Conferência Internacional sobre Aids, que será realizada entre os dias 26 e 31 de julho no Rio de Janeiro, com participação presencial e virtual. As informações completas devem ser apresentadas durante o encontro científico.
O lenacapavir é uma forma de PrEP de longa duração aplicada sob a pele a cada seis meses. A estratégia busca impedir que o HIV consiga se estabelecer no organismo de uma pessoa que não vive com o vírus, mas que está exposta a situações de maior vulnerabilidade à infecção.
Apesar de algumas publicações apresentarem os novos resultados como uma eficácia de 95%, o percentual não corresponde à proteção medida nessa etapa da pesquisa. Mais de 95% dos participantes elegíveis escolheram entrar na fase de extensão aberta dos estudos, permanecendo com o lenacapavir ou migrando da PrEP oral para a versão injetável. A proteção observada permaneceu próxima de 100%, mas foi calculada a partir do número de infecções registradas durante o acompanhamento.
Apenas uma nova infecção durante a extensão
O PURPOSE 1 avaliou principalmente mulheres cisgênero na África do Sul e em Uganda. Durante a fase de extensão aberta, não houve novas infecções pelo HIV entre as participantes que utilizaram o lenacapavir, incluindo aquelas que anteriormente faziam uso de comprimidos diários e decidiram migrar para a injeção semestral.
A análise compreendeu aproximadamente 4,5 mil pessoas ano de acompanhamento durante a extensão do estudo. A expressão pessoas ano combina o número de participantes com o tempo durante o qual cada um foi observado pelos pesquisadores.
No PURPOSE 2, realizado com homens cisgênero, mulheres trans, homens trans e pessoas não binárias que mantêm relações sexuais com parceiros designados como homens ao nascer, foi registrada uma nova infecção entre os participantes que continuaram usando o lenacapavir. Nenhuma infecção ocorreu entre aqueles que migraram da PrEP oral para a injetável.
O segundo estudo incluiu participantes do Brasil, Argentina, México, Peru, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos. A nova infecção ocorreu mesmo com as aplicações realizadas dentro do prazo previsto. Informações sobre os níveis do medicamento no organismo e outras circunstâncias do caso ainda não estavam disponíveis na divulgação preliminar.
Somados, os novos dados reforçam os resultados apresentados nas fases iniciais dos dois estudos. No PURPOSE 1, nenhuma participante que recebeu lenacapavir adquiriu o HIV durante a fase randomizada, resultado descrito como eficácia de 100% em comparação com a incidência estimada na população analisada.
No PURPOSE 2, a redução da incidência foi de 96% em comparação com a taxa esperada de infecções sem a intervenção. O medicamento também apresentou eficácia 89% superior à PrEP oral diária composta por tenofovir e entricitabina dentro da comparação realizada pelo estudo.
A expressão 100% de eficácia não significa proteção absoluta para qualquer pessoa, por tempo indeterminado e em todas as circunstâncias. Ela indica que nenhuma infecção ocorreu entre os participantes que receberam corretamente o medicamento durante o período específico daquele estudo. Os novos dados demonstram que a proteção continuou extremamente elevada com o aumento do tempo de acompanhamento.
Aplicação semestral pode facilitar a adesão
Uma das principais limitações da PrEP oral é a necessidade de manter o uso correto dos comprimidos. Quando a medicação não é tomada conforme a orientação, a concentração do antirretroviral pode ficar insuficiente para impedir que o HIV se estabeleça no organismo.
O lenacapavir procura reduzir essa dificuldade ao substituir a rotina diária por duas aplicações anuais realizadas por um profissional de saúde. Na extensão dos estudos, 96% dos participantes do PURPOSE 1 e 92% dos participantes do PURPOSE 2 continuavam recebendo as injeções dentro do intervalo previsto após 52 semanas.
A menor frequência também pode beneficiar pessoas que enfrentam dificuldades para armazenar medicamentos, manter uma rotina diária ou usar a PrEP de forma discreta. O estigma relacionado ao HIV e à sexualidade ainda pode levar usuários a esconder comprimidos ou abandonar a prevenção.
A injeção, entretanto, não elimina a necessidade de acompanhamento. O usuário precisa comparecer aos serviços de saúde dentro das datas programadas, realizar testes de HIV e receber orientação sobre prevenção combinada.
Como o lenacapavir age
O medicamento atua sobre o capsídeo, estrutura que protege o material genético do HIV. A substância interfere em diferentes etapas do ciclo de vida do vírus, dificultando sua entrada adequada nas células, a multiplicação e a formação de novas partículas virais capazes de continuar a infecção.
O esquema aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária inclui uma etapa inicial definida pelo médico, que pode envolver comprimidos, seguida por duas injeções subcutâneas administradas no abdômen a cada 26 semanas. A aplicação deve ser feita por um profissional de saúde.
O lenacapavir já era usado no tratamento de determinados pacientes com HIV resistente a diferentes medicamentos. A indicação preventiva representa uma finalidade diferente. Pessoas que já vivem com o vírus precisam receber uma combinação completa de antirretrovirais e não devem usar o lenacapavir isoladamente como PrEP.
Anvisa aprovou medicamento em janeiro
A Anvisa aprovou, em 12 de janeiro de 2026, o uso do lenacapavir como PrEP para reduzir o risco de transmissão sexual do HIV em adultos e adolescentes com mais de 12 anos e peso mínimo de 35 quilos.
Antes de iniciar o medicamento, a pessoa precisa apresentar resultado negativo para o HIV. A testagem também deve ser repetida durante o acompanhamento, principalmente antes das aplicações seguintes.
A exigência é importante porque o início da PrEP durante uma infecção aguda ainda não identificada pode favorecer o desenvolvimento de resistência. O risco também existe quando uma pessoa adquire o vírus durante o uso do medicamento e o diagnóstico demora a ser realizado.
Se o lenacapavir for interrompido e a exposição ao HIV continuar, outra modalidade de PrEP precisa ser discutida com o serviço de saúde. Como o medicamento permanece no organismo por um período prolongado, concentrações progressivamente menores podem não ser suficientes para prevenir a infecção e ainda favorecer a seleção de vírus resistentes.
Medicamento ainda não está disponível pelo SUS
A aprovação da Anvisa permite o uso do produto no Brasil, mas não representa disponibilidade imediata nas farmácias ou no sistema público.
O preço máximo ainda precisa passar pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Para que a PrEP injetável seja oferecida pelo SUS, a tecnologia também precisa ser avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias e aprovada pelo Ministério da Saúde. Até o momento, não existe previsão oficial para a distribuição do lenacapavir pela rede pública.
Atualmente, o SUS oferece gratuitamente a PrEP oral diária e, para grupos específicos, o esquema sob demanda. O acompanhamento pode ser procurado em unidades de saúde e Centros de Testagem e Aconselhamento.
O desafio de acesso será uma das principais discussões em torno da nova tecnologia. Embora a aplicação semestral tenha potencial para ampliar a prevenção, o impacto sobre a epidemia dependerá do preço, da capacidade dos serviços de saúde, da distribuição e da chegada do medicamento às populações que mais precisam dele.
A Organização Mundial da Saúde recomendou o lenacapavir em julho de 2025 como uma opção adicional de PrEP. A entidade classificou a tecnologia como uma das alternativas mais promissoras disponíveis enquanto uma vacina eficaz contra o HIV ainda não existe.
PrEP não previne outras infecções
O lenacapavir protege especificamente contra a aquisição sexual do HIV 1. O medicamento não evita sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites virais, HPV ou outras infecções sexualmente transmissíveis. Também não funciona como método contraceptivo.
Por esse motivo, a PrEP deve fazer parte da chamada prevenção combinada, que pode envolver preservativos, testagem regular, diagnóstico e tratamento de outras infecções, vacinação, profilaxia após exposição e acompanhamento médico.
Reações no local da aplicação, como dor, inchaço, vermelhidão, coceira, endurecimento ou formação de nódulos, estão entre os efeitos adversos mais frequentes. Nos estudos, a maioria das reações foi considerada leve ou moderada, e os novos dados não identificaram sinais de segurança diferentes dos já conhecidos.
Os resultados representam um dos maiores avanços recentes na prevenção do HIV. O desafio agora é transformar a elevada eficácia observada nas pesquisas em proteção real e acessível, garantindo testagem, acompanhamento e continuidade das aplicações para quem decidir utilizar a nova alternativa.