ALCOOLISMO

Participação de mulheres no AA aumenta 44% desde a pandemia

Com 65 encontros exclusivos para mulheres, o AA se adapta às necessidades de apoio e recuperação em um ambiente acolhedor

Fundado em 1935, nos Estados Unidos, o AA surgiu como uma rede de apoio composta majoritariamente por homens - Imagem: Reprodução / Freepik

William Oliveira Publicado em 16/06/2025, às 10h49

Nesta semana, a organização Alcoólicos Anônimos (AA) celebra seu 90º aniversário com uma estatística que reflete transformações sociais profundas: desde o início da pandemia, a participação feminina nas reuniões cresceu mais de 44% no Brasil.

Atualmente, o AA conta com 65 encontros exclusivos para mulheres, realizados tanto presencialmente quanto de forma virtual, além de centenas de reuniões mistas realizadas semanalmente em todo o país.

Fundado em 1935, nos Estados Unidos, o AA surgiu como uma rede de apoio composta majoritariamente por homens. Hoje, a realidade é outra: com mais de 2 milhões de membros distribuídos por 180 países, cresce significativamente a busca por ajuda por parte das mulheres.

Em São Paulo, um dos grupos femininos se destaca pelo ambiente de escuta e acolhimento. Uma participante compartilhou sua motivação: “Sou uma alcoólica e volto às reuniões em busca da minha recuperação.”

As histórias são diversas, mas atravessadas por um mesmo fio condutor: a luta silenciosa contra o vício e os efeitos devastadores do álcool na vida cotidiana.

Uma mulher que participa do grupo há mais de quarenta anos lembra o início da própria jornada de recuperação, aos 29 anos: “A luz que acendeu mesmo pra mim foi a primeira vez que eu disse: ‘Não vou beber mais’. E não consegui.”

Consumo de álcool entre mulheres cresce no Brasil

Dados do Ministério da Saúde mostram que o consumo abusivo de álcool entre mulheres aumentou de 10,5% em 2010 para 15,2% em 2023. Entre os homens, a taxa manteve-se relativamente estável: de 27% para 27,3% no mesmo período.

Um representante do AA comentou:  “O alcoolismo ainda é estigmatizado. A sociedade incentiva o consumo, mas condena quem bebe demais — especialmente as mulheres.”

Questões biológicas também agravam o quadro: devido ao menor percentual de água corporal e a um metabolismo mais lento, as mulheres tendem a sentir os efeitos do álcool com mais intensidade e rapidez.

Segundo Lívia Pires Guimarães, presidente da Junta de Serviços Gerais do AA no Brasil, muitas mulheres preferem beber dentro de casa, tentando evitar exposições públicas ou situações de risco.“Mesmo assim, o efeito do álcool já as vulnerabiliza”, alerta.

Em uma reunião recente na zona leste de São Paulo, que contou com oito homens e seis mulheres, foi debatido o estigma social enfrentado pelas mulheres alcoólicas.

“Ela foge do papel esperado pela sociedade, e por isso é ainda mais estigmatizada. Muitas vezes, nem consegue cuidar de si mesma, e é vista como alguém sem valor.”

Histórias de superação e pertencimento

A transformação proporcionada pela convivência em grupo é um traço recorrente nos depoimentos. Uma advogada, frequentadora há um ano e meio, resume com firmeza a importância da mudança:

“Hoje, tenho orgulho de ser mulher. O Alcoólicos Anônimos me devolveu a alegria de viver.”
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