Estado ocupa o segundo lugar no país em número absoluto de procedimentos, enquanto vergonha, desinformação e demora na procura por atendimento favorecem diagnósticos em estágios avançados.
Ana Beatriz Silva Publicado em 25/07/2026, às 17h20
Minas Gerais registrou 476 amputações provocadas pelo câncer de pênis entre 2021 e 2025 e ocupa o segundo lugar no ranking nacional de procedimentos relacionados à doença. O estado aparece atrás apenas de São Paulo, que contabilizou 547 casos no mesmo período.
Os dados nacionais divulgados pela Sociedade Brasileira de Urologia mostram que 2.949 amputações foram realizadas no Brasil durante os cinco anos analisados. Paraná, com 207 procedimentos, Rio Grande do Sul, com 204, e Maranhão, com 179, completam a lista dos estados com os maiores números absolutos.
A posição de Minas Gerais no ranking não significa necessariamente que o estado tenha a maior taxa proporcional da doença. Minas e São Paulo estão entre as unidades mais populosas do país e possuem redes de saúde com maior capacidade de registrar e realizar os procedimentos. Ainda assim, o volume de amputações evidencia um problema que especialistas consideram amplamente evitável por meio da prevenção e do diagnóstico precoce.
Segundo informações da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais divulgadas pelo jornal O Tempo, o estado registrou 891 diagnósticos de neoplasia maligna do pênis no Sistema Único de Saúde em 2024. Em 2025, foram contabilizados 587 casos, o equivalente a aproximadamente 48 diagnósticos por mês.
Os registros de 2026 ainda são preliminares. Até 15 de julho, o painel estadual contabilizava 17 casos, número que pode sofrer alterações com a atualização das bases de dados. Por isso, a quantidade não deve ser interpretada isoladamente como uma queda consolidada da doença.
Mais de 100 mortes em Minas desde 2024
A doença também provocou mais de 100 mortes em Minas Gerais desde 2024. Foram registrados 43 óbitos naquele ano, 47 em 2025 e outros 20 até meados de julho de 2026, conforme os dados apresentados pela Secretaria de Saúde.
Em um recorte nacional mais amplo, o Instituto Nacional de Câncer informa que o câncer de pênis atinge cerca de 1,3 pessoa a cada 100 mil habitantes. Apesar de ser considerado raro, o tumor pode evoluir de forma agressiva quando não é identificado e tratado nos estágios iniciais.
Entre 2007 e 2022, o SUS realizou 7.790 amputações decorrentes da doença, uma média de aproximadamente 486 procedimentos por ano.
O câncer de pênis ocorre com maior frequência em homens a partir dos 50 anos, embora também possa atingir pessoas mais jovens. No Brasil, a incidência é historicamente maior nas regiões Norte e Nordeste.
Vergonha pode atrasar o diagnóstico
Um dos principais obstáculos para o tratamento é a resistência de parte dos homens em procurar atendimento médico ao perceber alterações no órgão genital.
Vergonha, medo do diagnóstico, preconceito e dificuldade para conversar sobre saúde sexual podem fazer com que lesões inicialmente pequenas permaneçam sem avaliação por semanas ou meses. Quando o tumor é descoberto em estágio avançado, aumenta a possibilidade de uma penectomia, cirurgia que remove parcial ou totalmente o pênis.
Segundo especialistas, o paciente deve procurar atendimento ao perceber uma ferida que não cicatriza, nódulo, secreção persistente, sangramento, vermelhidão, coceira, inflamação, alteração na cor ou na textura da pele e dificuldade para expor a glande.
Dor durante a relação sexual e surgimento de inchaços ou ínguas na virilha também exigem investigação, pois podem indicar comprometimento dos linfonodos.
Esses sinais nem sempre significam câncer. Infecções e outras condições podem provocar alterações semelhantes. No entanto, somente uma avaliação médica permite identificar a causa e iniciar o tratamento adequado.
Diagnóstico precoce pode evitar mutilações
O tipo de tratamento depende do tamanho e da localização do tumor, da profundidade da lesão e da eventual disseminação para os gânglios da virilha ou outros órgãos.
Nos casos iniciais, podem ser utilizados procedimentos que preservam uma parcela maior do pênis. Em situações avançadas, pode ser necessária a retirada parcial ou total do órgão, além da remoção dos linfonodos comprometidos. O tratamento também pode incluir radioterapia ou quimioterapia, conforme a avaliação médica.
O Ministério da Saúde destaca que o diagnóstico precoce é essencial para evitar a progressão da doença e reduzir o risco de amputação. Mesmo quando há comprometimento dos gânglios da virilha, ainda pode existir possibilidade de cura, dependendo da extensão do tumor e da resposta ao tratamento.
A amputação provoca consequências que ultrapassam a recuperação física. O procedimento pode afetar a vida sexual, a autoestima, a imagem corporal e a saúde emocional do paciente, tornando importante o acompanhamento psicológico e multiprofissional.
Higiene, HPV e tabagismo estão entre os fatores de risco
A higiene íntima inadequada é um dos fatores associados ao desenvolvimento do câncer de pênis, especialmente quando existe dificuldade para expor a glande e realizar a limpeza completa da região.
A fimose, condição em que o prepúcio não pode ser retraído adequadamente, pode favorecer o acúmulo de secreções e processos inflamatórios. A avaliação médica é necessária para definir se há indicação de tratamento ou circuncisão.
A infecção persistente por tipos de alto risco do HPV também está relacionada à doença. O vírus é transmitido principalmente por contato sexual e pode infectar regiões que não ficam totalmente protegidas pelo preservativo.
O uso de preservativos reduz o risco de transmissão, mas não elimina completamente a possibilidade de infecção. A vacinação continua sendo a principal forma de prevenção contra os tipos de HPV incluídos no imunizante.
O tabagismo também aumenta o risco de diferentes tipos de câncer e está associado ao desenvolvimento do tumor peniano. Abandonar o cigarro, portanto, integra as medidas de prevenção.
Vacinação foi ampliada em 2026
O Calendário Nacional de Vacinação recomenda uma dose da vacina contra o HPV para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Em 2026, o Ministério da Saúde prorrogou até 31 de dezembro a estratégia de resgate para jovens de 15 a 19 anos que não receberam o imunizante na idade recomendada ou não possuem registro da vacinação.
O SUS também oferece a vacina para grupos específicos até os 45 anos, incluindo pessoas vivendo com HIV, transplantados, pacientes oncológicos, usuários de PrEP e vítimas de violência sexual, conforme os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
Como reduzir o risco
O Ministério da Saúde recomenda lavar o pênis regularmente com água e sabão neutro, secar bem a região, utilizar preservativo nas relações sexuais, manter a vacinação contra o HPV atualizada e observar possíveis alterações no órgão.
Feridas, inchaços ou mudanças na cor e na textura da pele devem ser avaliados em uma Unidade Básica de Saúde ou por um urologista.
A recomendação também se aplica aos homens que não sentem dor. Em alguns casos, a lesão inicial pode ser indolor, o que contribui para a falsa impressão de que o problema não é grave.
O número de amputações em Minas Gerais mostra que superar o tabu sobre a saúde íntima masculina não é apenas uma questão de conscientização. Procurar atendimento rapidamente diante de qualquer alteração pode representar a diferença entre um tratamento menos agressivo e uma cirurgia com consequências permanentes.