Dosagem de vitaminas, avaliação das reservas de ferro e exames metabólicos podem ajudar a identificar alterações que provocam sintomas semelhantes aos do climatério, mas a indicação deve considerar o histórico e os fatores de risco de cada mulher.
Ana Beatriz Silva Publicado em 25/07/2026, às 17h40
Ondas de calor, alterações no sono, ressecamento vaginal e mudanças de humor estão entre as manifestações mais conhecidas da menopausa. Entretanto, sintomas como cansaço persistente, dificuldade para perder peso, perda de força muscular, problemas de memória, indisposição, formigamentos e dores no corpo nem sempre são provocados apenas pela redução dos hormônios femininos.
Essas queixas também podem estar relacionadas a deficiências nutricionais, anemia, alterações metabólicas, processos inflamatórios, distúrbios da tireoide, problemas cardiovasculares ou outras condições que precisam ser avaliadas individualmente. Por isso, em determinados casos, o médico pode solicitar exames complementares além da investigação hormonal.
A menopausa corresponde à última menstruação e geralmente ocorre entre os 45 e os 55 anos. Já o climatério representa todo o período de transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva. Embora essa etapa possa provocar alterações importantes no organismo, ela é considerada um processo natural da vida e não uma doença.
Em mulheres com 45 anos ou mais e sintomas típicos, a identificação da menopausa costuma ser baseada no histórico menstrual e na avaliação clínica. Exames hormonais não são necessários de forma automática para confirmar essa fase. A dosagem do hormônio folículo estimulante, conhecido como FSH, costuma ser considerada principalmente quando há suspeita de menopausa antes dos 45 anos ou de insuficiência ovariana precoce.
Vitamina D
A vitamina D participa da manutenção da saúde óssea e muscular. Sua dosagem pode ser considerada quando a mulher possui osteoporose, histórico de fraturas, baixa exposição ao sol, doenças que afetam a absorção de nutrientes ou outros fatores que aumentem o risco de deficiência.
A queda do estrogênio acelera a perda de massa óssea, o que torna a prevenção da osteopenia e da osteoporose especialmente importante após a menopausa. Isso não significa, porém, que toda mulher precise fazer a dosagem da vitamina D durante um check-up.
A Endocrine Society recomenda que adultos saudáveis, sem fatores de risco ou indicação clínica, não sejam submetidos rotineiramente ao rastreamento dos níveis de vitamina D. O resultado deve ser analisado em conjunto com sintomas, alimentação, medicamentos, exposição ao sol e condições de saúde preexistentes.
Vitamina B12
A deficiência de vitamina B12 pode causar fadiga, anemia, alterações neurológicas, formigamentos, problemas de equilíbrio, dificuldade de concentração e prejuízos à memória. Alguns desses sinais podem ser confundidos com sintomas associados à menopausa ou ao envelhecimento.
O risco pode ser maior entre pessoas que seguem dietas com pouca ou nenhuma fonte animal, possuem problemas de absorção gastrointestinal, passaram por cirurgias no aparelho digestivo ou utilizam determinados medicamentos por períodos prolongados, como metformina e alguns redutores da acidez do estômago.
A dosagem, portanto, pode ser útil diante de sintomas ou fatores de risco, mas não deve ser interpretada isoladamente.
Ferritina
A ferritina é uma proteína responsável pelo armazenamento de ferro e funciona como um dos principais indicadores das reservas desse mineral no organismo. Níveis reduzidos podem estar associados a cansaço, fraqueza, falta de disposição e queda de desempenho físico.
Embora a deficiência de ferro seja mais frequente durante a fase reprodutiva, principalmente por causa das perdas menstruais, ela também pode ocorrer após a menopausa. Nessa etapa, um resultado baixo exige investigação das possíveis causas, incluindo alimentação inadequada, dificuldade de absorção ou perdas de sangue pelo sistema digestivo.
A ferritina pode ainda apresentar valores elevados durante infecções e processos inflamatórios. Por esse motivo, o resultado deve ser interpretado em conjunto com o hemograma e outros exames relacionados ao metabolismo do ferro.
Proteína C reativa
A proteína C reativa, conhecida como PCR, é produzida pelo fígado e pode aumentar na presença de inflamações, infecções e outras alterações no organismo.
Existe também a proteína C reativa ultrassensível, utilizada em algumas situações para complementar a avaliação do risco cardiovascular. Níveis elevados podem estar associados a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e outras doenças cardiovasculares, mas o exame não identifica sozinho a origem da inflamação.
A PCR não deve ser considerada um teste obrigatório para todas as mulheres na menopausa. Sua utilização faz mais sentido quando existe uma pergunta clínica específica ou quando o médico precisa complementar a avaliação cardiovascular ao lado de informações como pressão arterial, colesterol, glicemia, tabagismo, peso e histórico familiar.
Insulina e controle da glicose
O envelhecimento, o aumento da gordura abdominal, o sedentarismo e as mudanças na composição corporal podem contribuir para o desenvolvimento de resistência à insulina. Nessa condição, o organismo precisa produzir quantidades maiores do hormônio para controlar a glicose no sangue.
A dosagem de insulina pode ser solicitada em contextos específicos e interpretada em conjunto com a glicemia e outros dados clínicos. Entretanto, ela não é o principal exame utilizado para diagnosticar diabetes ou pré diabetes.
As recomendações da Associação Americana de Diabetes reconhecem a glicemia de jejum, a hemoglobina glicada e o teste oral de tolerância à glicose como métodos apropriados para o rastreamento e o diagnóstico. A avaliação deve ser antecipada ou realizada com maior frequência em pessoas com sobrepeso, obesidade, hipertensão, alterações no colesterol, sedentarismo, histórico familiar ou outros fatores de risco.
Os cinco exames não são obrigatórios para todas
Vitamina D, vitamina B12, ferritina, proteína C reativa e insulina podem oferecer informações importantes em determinadas situações. Ainda assim, esses exames não formam uma lista obrigatória para todas as mulheres que chegaram à menopausa.
Solicitar muitos testes sem uma justificativa clínica pode provocar resultados alterados sem relevância, preocupação desnecessária, novos exames, tratamentos inadequados e gastos evitáveis. Ao mesmo tempo, atribuir automaticamente todo sintoma à menopausa pode atrasar o diagnóstico de condições que possuem tratamento.
O ponto de partida deve ser uma consulta completa, com avaliação dos sintomas, histórico menstrual, hábitos de vida, medicamentos utilizados, antecedentes familiares, saúde mental, sexualidade, pressão arterial, peso e risco de doenças metabólicas, cardiovasculares e ósseas.
Cuidados preventivos não podem ser esquecidos
Os exames citados não substituem os cuidados preventivos recomendados para a faixa etária. A avaliação da mulher durante e depois da transição menopausal também pode envolver, conforme idade e fatores de risco, hemograma, perfil de colesterol e triglicérides, glicemia, hemoglobina glicada, exames da tireoide, mamografia, rastreamento do câncer do colo do útero e densitometria óssea.
No SUS, o rastreamento populacional do câncer de mama por mamografia é recomendado para mulheres entre 50 e 74 anos, a cada dois anos. Mulheres com sintomas suspeitos ou risco elevado devem receber uma avaliação individualizada, independentemente da idade.
O rastreamento do câncer do colo do útero também deve continuar conforme os protocolos de idade e histórico clínico. O Ministério da Saúde passou a adotar o teste molecular de DNA do HPV como exame primário no rastreamento organizado, com intervalo de cinco anos quando o resultado é negativo.
Além dos exames, atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado, abandono do cigarro, controle do peso e acompanhamento médico ajudam a reduzir o risco de osteoporose, diabetes e doenças cardiovasculares durante o envelhecimento.
A mensagem central é que a menopausa não deve ser tratada como explicação automática para todas as mudanças que surgem depois dos 45 ou 50 anos. Mais importante do que realizar o maior número possível de exames é investigar os sintomas certos, com os testes adequados para cada mulher.