Reinaldo Polito Publicado em 15/02/2026, às 10h14
Se você for como a maioria, só de pensar que em pouco tempo terá de ouvir o falatório político no período eleitoral, já deve estar cansado antes mesmo de ouvir os primeiros discursos. São chatos, repetitivos e, na maior parte das vezes, mentirosos. Mas não tem para onde fugir. Se escapa da televisão, será apanhado pelo rádio. E se a bruxa estiver solta, até em comícios políticos feitos em cima de palanques.
Mas se eles são cansativos e indesejáveis, como é que alguns conseguem despertar o interesse e chamar a atenção dos eleitores? Os políticos campeões de votos sabem como tocar o sentimento dos ouvintes. Observe como são diferentes. Chegam a cometer erros gramaticais, não possuem lógica de raciocínio, não seguem as regras da boa oratória, mas conseguem o que mais desejam: o voto dos eleitores.
Como sabem que os discursos políticos comuns provocam essa aversão na maioria das pessoas, fazem de tudo para serem diferentes. Os bons de palanque saem do lugar comum, fogem da mesmice, investem no inusitado. Para conquistar a atenção fugidia dos eleitores, se valem de recursos preciosos da comunicação.
Dificilmente os ouvintes ficariam indiferentes diante de uma frase de grande impacto. Essas palavras provocativas iniciais dão a entender que algo importante acontecerá naquela apresentação. Pronto, a atenção do público foi fisgada. Na sequência, para não perder a concentração conquistada, fazem uma brincadeira ou usam a ironia. Enquanto divertem a plateia, transmitem a mensagem que desejam.
Outro recurso irresistível são as histórias. Elas são sedutoras e têm essa capacidade de envolver os ouvintes que desejam saber qual será o final daquela narrativa. Com a plateia atenta, bastará associar a história à mensagem e terá o eleitor à sua disposição. Os bons oradores levam consigo um bom estoque dessas histórias para usar de acordo com a necessidade da circunstância.
Um dos políticos mais competentes nessa arte foi Mário Covas. No período eleitoral, eu entrava em sala de aula e perguntava aos alunos se haviam assistido aos discursos políticos no horário eleitoral gratuito. Quase ninguém. Apenas um ou outro. Eu queria saber se eles se lembravam de algum candidato especificamente. Não falhava, Covas era sempre citado.
Como o objetivo era ensinar a arte de falar em público, eu explicava por que aquele político chamava tanto a atenção: era um ótimo contador de histórias. Todas elas muito bem contextualizadas com os temas da sua campanha. Os ouvintes e telespectadores nem percebiam que naquelas histórias estavam também suas propostas de campanha.
Em uma delas, contou que tinha uns amigos que residiam na região de Ribeirão Preto. Era um casal com a filhinha, que moravam num pequeno sítio. Certo dia, enquanto trabalhavam, se deram conta de que a menina não estava por perto. Procuraram em todos os cantos. Atrás das portas, debaixo das camas, dentro dos armários, nesses locais em que as crianças gostam de se esconder.
A preocupação foi aumentando. Olharam dentro do poço de água, no galpão e nada. Como eram pessoas queridas, em pouco tempo, os vizinhos estavam lá para ajudar, andando todos de um lado para o outro. Até que um deles alertou: estamos andando em círculos e perdendo tempo. Como somos muitos, vamos dar as mãos e andar na mesma direção.
E assim fizeram. Em pouco tempo encontraram a menina caída atrás de um tronco de árvore. Havia caído e batido a cabeça. Foi socorrida e puderam salvá-la. Pois é, quem deixaria de prestar atenção nesse tipo de história? Em seguida, com naturalidade, Covas dizia: o que salvou aquela menina foi a união e a solidariedade daquelas pessoas.
Assim vai ser o PMDB. Com as mãos dadas com todos vocês, vamos varrer os problemas do nosso estado e salvar a nossa população das agruras que enfrenta hoje com tanta dificuldade. No dia seguinte, ele já lançava mão de outra história interessante e conseguia assim despertar o interesse dos eleitores e conquistar os votos de que precisava.
Os discursos políticos intragáveis estão batendo à nossa porta. Se algum chamar a atenção, quem sabe não seja uma boa frase de impacto ou uma história curiosa que nos envolveu.