COLUNA

Trump estende a mão a Lula ou esconde um Cavalo de Troia?

Trump estende a mão a Lula ou esconde um Cavalo de Troia? - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump / @lulaoficial

Reinaldo Polito Publicado em 03/08/2025, às 14h33

Trump acenou com disposição para se reunir com Lula: “Ele pode falar comigo quando quiser. Vamos ver o que acontece, eu amo o povo brasileiro.” Se tivesse parado aí, tudo bem. O complemento é que foi preocupante: “As pessoas que governam o Brasil fizeram a coisa errada.”

Enigmático. Afinal, o que significa essa última frase? As autoridades brasileiras erraram antes, motivando a imposição de uma das mais altas tarifas do mundo, de 50%? Ou foi agora, ao conduzirem mal o relacionamento diplomático?

O puxão de orelha

Um fato é relevante: todas as tentativas de contato do Brasil com os Estados Unidos foram rechaçadas. Até a embaixadora brasileira na América do Norte encontrou as portas fechadas para o diálogo. Ouviu um sonoro “Agora é tarde.” É possível deduzir, portanto, que o erro do governo brasileiro tenha sido anterior.

Dificilmente Lula terá essa resposta antes de fazer o contato. É mais provável que ocorra por telefone, e só então o presidente brasileiro descobrirá a causa do puxão de orelha. Depois de ter agredido Trump verbalmente de maneira insistente, especialmente ao perceber que esse comportamento lhe rendia dividendos nas pesquisas eleitorais, agora talvez tenha de ouvir calado.

O exemplo de Zelensky

O chefe do Executivo americano não costuma ter muito filtro para falar o que pensa. Que o diga Volodymir Zelensky. Em fevereiro deste ano, durante encontro entre os dois líderes no Salão Oval da Casa Branca, Trump falou duro. Disse que o ucraniano havia sido desrespeitoso com os EUA e o acusou de estar jogando com a Terceira Guerra Mundial.

Muitos censuraram o comportamento de Trump, dizendo que ele humilhou o visitante com aquelas palavras agressivas. Esse bate-boca ocorreu diante da imprensa e foi transmitido ao vivo pela televisão. Chegou a um nível impensado. Além de não assinarem um acordo, Zelensky foi praticamente expulso do local.

Embate duro

Portanto, essa oportunidade de diálogo para aparar as arestas é um ótimo sinal, já que até agora os caminhos se mostravam blindados, sem chances de aproximação. A forma como Trump agirá, porém, ninguém sabe ao certo. Ele está acostumado a todo tipo de embate e é um excelente negociador.

Por outro lado, Lula também conhece bem os campos de batalha. Participa de contendas desde a época em que presidia o sindicato dos metalúrgicos. Na política, enfrentou oponentes ferrenhos e conseguiu chegar pela terceira vez ao Palácio do Planalto. Sua posição neste momento, todavia, é bastante desfavorável. Por mais que argumente e justifique, terá de engolir as imposições contrárias.

Bolsonaro como condição

Para quem não tem nada, entretanto, qualquer resultado será bem-vindo. Sem contar que poderá deixar uma porta aberta para novas rodadas de negociações. O importante, nas circunstâncias atuais, é conseguir um lugar à mesa para falar, ouvir, ponderar e tentar persuadir. Precisará estar pronto para ser atacado e não reagir emocionalmente. Só deve ficar atento para não ter diante de si um Cavalo de Troia.

Há nessa discussão um complicador difícil de ser superado. A determinação da taxa de 50% para os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos foi precedida de uma carta estabelecendo os motivos desse tarifaço. Logo no primeiro parágrafo, Trump esclareceu que o ex-presidente Bolsonaro estava sendo perseguido e que deveria ser deixado em paz. Exigiu que o julgamento fosse encerrado imediatamente.

As Big Techs

As outras condições incluíram a liberdade de expressão e o funcionamento das Big Techs no país. Lula não pode agir nessa direção. Mesmo que desejasse ver Bolsonaro condenado e afastado da vida pública, trata-se de uma decisão que cabe ao Judiciário, sobre o qual o Executivo não pode interferir.

As regras para as Big Techs também foram estabelecidas pelo Judiciário. Esse é mais um ponto que Lula não teria como negociar. Restariam as tarifas sobre os produtos exportados. Assim como aconteceu com o suco de laranja, aviões civis (e suas peças), minérios e combustíveis, talvez outros produtos pudessem engrossar a lista dos 700 itens já contemplados.

Trump é duro na queda

Quem conhece Trump sabe que, diante desse tipo de impasse, o mais provável é que peça a Lula que converse com o Judiciário e, só depois de esclarecidos todos os pontos, retome as negociações. Do jeito que o presidente americano está conduzindo as ações contra os ministros do STF, dificilmente recuará.

Tudo indica que, em termos práticos, essa conversa não dará resultado imediato. As tarifas se manterão como foram determinadas, os ministros continuarão a ser pressionados pela Lei Magnitsky e a população brasileira sofrerá as consequências.

Trump já acertou os ponteiros com quase todos os países. Levou a vantagem que desejava, aumentando a receita dos Estados Unidos em muitos bilhões de dólares. Seus objetivos foram atingidos. No caso do Brasil, a questão é mais estratégica. Quer impedir que a esquerda ganhe força na América do Sul. A presença de Bolsonaro nessa equação seria determinante. Resta saber se Lula abrirá mão desse trunfo, ou se resistirá até o último round.

Lula Bolsonaro Estados Unidos STF Trump Exportações DIPLOMACIA TARIFAS ZELENSKY Big Techs

Leia também