Entre anistias e promessas de apoio internacional, os seguidores de Bolsonaro buscam alternativas para reverter a prisão do ex-presidente
Reinaldo Polito Publicado em 14/09/2025, às 13h18
Conheço alguns bolsonaristas. Desses de empunhar bandeira e gritar “mito” a plenos pulmões. São capazes de relacionar todos os feitos do ex-presidente. Em dois minutos, como têm tudo na ponta da língua, desfilam realizações de Bolsonaro que, para a maioria, já caíram no esquecimento.
Falam com desenvoltura, sem precisar pensar, por exemplo, no seu empenho para desburocratizar e dar mais liberdade à atividade econômica. Se alguém contesta, a réplica vem pronta: ele reduziu o tempo para registrar uma empresa para apenas 23 horas com o Sistema Balcão Único.
Dados impressionantes
E se o interlocutor parece não se impressionar, eles aumentam o tom de voz e seguem com convicção: atingiu o menor nível de desemprego desde 2015, 9,3%. Conseguiu a proeza de criar 8,7 milhões de empregos em três anos, uma média de 2,7 milhões por ano. Só para comparar, com o PT a média teria sido de 0,57 milhão por ano.
Enquanto não pedirem para parar, continuam: zerou os tributos federais para gasolina, etanol hidratado e diesel. Implementou a lei que reduziu o ICMS sobre combustíveis, eletricidade e telecomunicações. Cortou o IPI para automóveis. Criou a Secretaria de Atenção Primária à Saúde e o Departamento de Saúde da Família. Investiu mais de R$ 626 bilhões no combate à Covid-19. Fez com que as estatais, que hoje são deficitárias, dessem lucro de R$ 188 bilhões.
Uma condenação pesada
São dezenas de conquistas que, segundo eles, melhoraram a vida dos brasileiros. São dados que, na visão deles, têm provas consistentes e não dão espaço para refutações.
Dá para imaginar como esses admiradores de Bolsonaro estão se sentindo depois que o STF determinou sua prisão por 27 anos e 3 meses. A indignação é tão forte que se comportam como se tivessem perdido alguém da família. Estão tristes, cabisbaixos, sem vontade de conversar.
Recorrem a Fux
Quando provocados, porém, retomam a velha veemência. Amparam-se, sobretudo, no extenso voto do ministro Luiz Fux e repetem de cor os pontos da defesa. Preferem citar o ministro a mencionar os advogados.
Os argumentos principais: o STF não teria competência para julgar o ex-presidente; o processo deveria ter começado na primeira instância, já que ele não possui foro privilegiado. Reclamam também do volume excessivo de documentos, um “tsunami de dados”, nas palavras de Fux, que, dizem, a defesa não teve tempo de analisar.
Mais argumentos de defesa
A contestação não para aí. Afirmam que a acusação não apresentou evidências de uso de armas de fogo, rejeitando a tese de organização criminosa. E encerram, quase sem fôlego, dizendo que ninguém pode ser punido apenas por cogitação: discursos e entrevistas, ainda que duros contra outros poderes, jamais poderiam ser considerados tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito.
“Ok, tem razão, mas está preso”, como dizia meu sogro para lembrar que, contra autoridade, ter razão nem sempre adianta. A pergunta seguinte é inevitável: o que Bolsonaro pode fazer agora para ser liberado? Nessa hora, a resposta já não vem tão rápida. Precisam pensar.
Qual seria a saída para Bolsonaro?
Depois de um breve silêncio, listam as saídas: a primeira seria a aprovação de uma lei de anistia ampla, geral e irrestrita. E garantem que já há votos suficientes, bastando que Hugo Motta cumpra a promessa de campanha para assumir a presidência da Câmara. A segunda esperança está nas ações do presidente americano Donald Trump, que, segundo eles, prometeu sanções e retaliações contra o Brasil e contra quem apoiou a decisão do relator.
Enquanto nada disso acontece, os bolsonaristas seguem desanimados, digerindo o resultado da decisão dos ministros como se fosse a perda de um ente querido. E, como a política costuma se misturar ao Direito, resta aguardar que a famosa nuvem, que muda de lugar num piscar de olhos, indique os ventos a seguir. Siga pelo Instagram: @polito