Reinaldo Polito Publicado em 31/08/2025, às 09h00
Lula autorizou os primeiros passos para que o país acione a Lei da Reciprocidade contra a maior potência do planeta. A decisão vem após o tarifaço de 50% imposto por Washington sobre produtos brasileiros. Parece gesto de bravura. Mas será estratégia ou apenas um duelo em que entramos de peito estufado, como se fosse a formiga desafiando o rinoceronte?
Para entender, pense num cenário alternativo. Imagine que a França resolvesse impor um tarifaço semelhante. O impacto seria mínimo: em 2023, os franceses responderam por apenas 0,6% das exportações brasileiras, segundo o Observatório de Complexidade Econômica (OEC).
Bom só para o marketing político
Nesse caso, aplicar a reciprocidade poderia até soar como demonstração de força: o governo subiria no palanque e diria que ninguém mexe com a nossa soberania. No fim, porém, tanto para eles quanto para nós, a conta seria quase irrelevante.
Mas com os Estados Unidos a história é outra. De acordo com dados do Icomex/FGV, divulgados pela Agência Brasil em julho de 2025, o país foi destino de 12,2% das exportações brasileiras em 2024. Um tarifaço de 50% nesse volume mexe profundamente com a economia, em especial com setores como aço, alumínio, produtos químicos e manufaturados de maior valor agregado.
Uma briga perdida antes de começar?
E o que os americanos perderiam com uma retaliação? Há divergências nos números, mas dados oficiais do US Census Bureau/USTR indicam que, em 2024, o Brasil respondeu por apenas 1,8% das exportações totais dos EUA. Uma fatia modesta para uma economia desse porte.
A Lei da Reciprocidade, que agora ganha destaque, é um instrumento que o Brasil pode acionar para impor ao país parceiro as mesmas condições que recebemos. Na teoria, parece simples: se eles nos cobram mais caro, cobramos também. Na prática, raramente é usada, porque o custo político e econômico de abrir uma guerra comercial costuma ser maior do que o benefício imediato.
O Brasil não tem muitas saídas para esse impasse
Mesmo assim, Lula decidiu avançar. Só a possibilidade já causa apreensão no mercado. Não há cenário em que o Brasil saia ganhando. Qualquer retaliação seria respondida com tarifas ainda mais pesadas. Autoridades americanas já disseram isso de maneira explícita.
Além do aspecto econômico, Trump acrescentou ingredientes políticos à receita: exigiu liberdade total às big techs, o fim dos julgamentos contra Bolsonaro e até punições a ministros brasileiros. É uma lista que transforma a disputa comercial em queda de braço ideológica.
Portas abertas para negociar
O trâmite, é verdade, abre uma janela para negociação. O Itamaraty encaminha a proposta à Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), que tem até 30 dias para emitir parecer técnico. Com a aprovação, o governo notifica oficialmente os EUA. Paralelamente, um grupo interministerial define como reagir caso venha nova ofensiva de Washington.
Enquanto isso, técnicos correm atrás de alternativas. Pensam em incentivos, rotas de exportação, abertura de novos mercados. O problema é que reposicionar exportações não é como trocar de camisa: dá trabalho, leva tempo e exige paciência.
A perda é representativa
Basta olhar para a própria experiência com a China. Para conquistar espaço ali, foi preciso mais de uma década de negociações, adaptação de normas sanitárias e construção de uma rede logística capaz de sustentar o fluxo de soja, carnes e minério de ferro. Não é algo que se faça da noite para o dia.
Hoje, os chineses absorvem cerca de 28% das exportações do Brasil, consolidando-se como nosso principal parceiro comercial. Os EUA vêm em segundo, mas bem atrás. Ainda assim, segundo a Reuters, mesmo com isenções para determinados produtos, a tarifa de 50% atinge diretamente 36% das nossas vendas para os americanos.
Os oportunistas no palanque
Não faltam vozes contra o que chamam de “imperialismo” americano. Argumenta-se que o objetivo não é apenas comercial, mas redesenhar a geopolítica internacional. Trump agiria olhando apenas para o próprio umbigo, sem considerar parceiros de longa data. Essa percepção alimenta discursos inflamados, mas pouca coisa muda na prática.
Porque, no fim, indignação não paga a conta. Reclamar não adianta. O que importa agora é a capacidade de encontrar saídas criativas e pragmáticas para reduzir os danos.
Quem paga a conta?
O problema é que, pelo tom adotado até aqui, o Brasil parece caminhar em descompasso com a cartilha diplomática. Tomara que saibam o que estão fazendo. Difícil prever o desfecho. Só uma certeza: a conta, salgada como sempre, cairá no colo do brasileiro comum.