Reinaldo Polito Publicado em 10/05/2026, às 08h00
Lula venceu as eleições e se tornou presidente pela terceira vez. Sua função era a de governar o país para todos os brasileiros, e não apenas para a metade da população que o elegeu. Talvez tenha se equivocado porque nunca havia encontrado o Brasil tão dividido. Seus adversários diretos nos pleitos anteriores não eram conservadores. Fernando Henrique não era. Alckmin não era. Serra, que enfrentou Dilma, sua sucessora, não era. Só Bolsonaro era.
Portanto, essa nova situação exigia um ajuste de lentes para que a realidade fosse observada dentro das suas verdadeiras dimensões. Não foi o que fez. Continuou a governar o país como se estivesse em seus dois primeiros mandatos. Ao fim do segundo mandato, chegou a ter mais de 85% de aprovação popular. Seria aplaudido por tudo o que dissesse.
Visão distorcida
No terceiro mandato, assim que foi declarado vencedor, já demonstrou que sua visão estava distorcida. Logo no discurso da vitória, disse em tom jocoso que a direita não estava lá. Só gente de esquerda. E nunca mais parou. Sempre que teve oportunidade, cutucava os opositores com vara curta.
Não só Lula, mas também todos os que o cercaram desde o início, não priorizaram a busca pela pacificação. Gleisi Hoffmann, por exemplo, foi muito infeliz ao comemorar a saída de Neymar da Copa por contusão com um "Foi tarde". O revanchismo e a ação beligerante gratuita não poderiam levar a bom termo, como efetivamente não levaram.
Recorde de desaprovação
Hoje, Lula amarga recorde de desaprovação em toda a sua trajetória política por um conjunto de fatores: decisões equivocadas, excesso de gastos, aumento irrefreável de impostos, falta de plano para o controle da inflação real, aquela que pesa no bolso do trabalhador no supermercado, e não apenas a registrada nos índices divulgados.
Mas, se existe um motivo que pesa ainda mais nessa equação, foi não ter dado a mão aos vencidos. Alguns poderiam dizer que os perdedores também não colaboraram, que ficaram fustigando o governo durante o tempo todo. Só que o papel de conciliador deve ser de quem governa. Como disse Anatole France: "É-se rebelde quando se é vencido. Os vencedores nunca são rebeldes".
Discurso desatualizado
Não houve trégua. Falou como se não houvesse amanhã. Sem saber, provavelmente, que não haveria mesmo. No primeiro pronunciamento como presidente eleito já provocou grande alvoroço. Criticou a "tal estabilidade fiscal". Demonstrando já naquela oportunidade o que aconteceria nos anos seguintes: a falta de comprometimento com o dinheiro público.
"Por que as pessoas são levadas a sofrer por conta de garantir a tal estabilidade fiscal neste país? Por que toda hora as pessoas falam que é preciso cortar gasto, que é preciso fazer superávit, que é preciso fazer teto de gasto? Por que as mesmas pessoas que discutem com seriedade o teto de gasto não discutem a questão social?"
O mercado reagiu
Esse discurso populista nos moldes do que se pregava no século passado, caiu como um tsunami. A Bolsa despencou, o dólar subiu, as previsões inflacionárias se assanharam. E não foi só gente da oposição que reclamou. Até economistas que o apoiaram na campanha não conseguiram se calar. Alguns deles, como Henrique Meirelles, abandonaram o barco antes mesmo de zarpar.
Percebendo o tamanho da encrenca em que havia se metido, Lula procurou atenuar o estrago. Só que, em vez de se desculpar, partiu para as suas costumeiras ironias. Ou seja, colocou ainda mais combustível no incêndio:
"O mercado fica nervoso à toa. Eu nunca vi um mercado tão sensível como o nosso. É engraçado que esse mercado não ficou nervoso com quatro anos de Bolsonaro".
A velha tática de terceirizar a culpa estava sendo posta em prática novamente. Não colou. Precisou puxar o freio de mão e moderar o discurso.
Não desceu do palanque
Esse seria o momento de afirmar, de coração aberto, que governaria para todos, e não apenas para os que haviam votado nele. Se agisse assim, não poderia ficar só nas palavras. As atitudes é que falariam mais alto. E não falaram. Com isso, acirrou a resistência dos opositores.
Nesses anos de Lula 3, o presidente não desceu do palanque. Com um detalhe agravante. Seus discursos perderam o encanto. Especialmente quando fala de improviso. Quando põe para fora o que verdadeiramente pensa, o resultado costuma ser desastroso. Aumenta ainda mais a força dos opositores e enfraquece o ânimo dos aliados.
Pouco foi efetivado para unir o país num projeto consistente, e quase nenhuma atitude relevante foi desenvolvida. Pior. Tudo o que for feito daqui para a frente será com intenções eleitorais. Aí é que não vai funcionar mesmo.
Siga pelo Instagram: @polito