Por Reinaldo Polito Publicado em 12/04/2026, às 10h42
Na época do Mensalão e do Petrolão, parte da sociedade vislumbrava dias melhores para o país. Finalmente, políticos e empresários da prateleira de cima estavam sendo condenados a penas pesadas. Os brasileiros assistiam às delações com muito interesse.
Acontecia o que muitos desejavam. Havia, até então, certa desesperança, pois os malfeitores, defendidos por advogados competentes, encontravam sempre uma brecha na lei que lhes servia de porta de saída. Desta vez, não. Os delatores mostravam os caminhos percorridos por aqueles que haviam cometido os crimes. Era um caso mais espantoso que o outro.
Quando a ideologia atrapalha o discernimento
Mesmo assim, com todas as provas apresentadas, algumas pessoas, movidas por cega ideologia, não se convenciam. Ao serem questionadas por que insistiam em apoiar aqueles que sabidamente haviam desviado dinheiro de empresas públicas e contribuído para o superfaturamento de obras pagas com recursos do contribuinte, diziam: político é tudo igual.
Em certos casos, eu tentava colocar um pouco de luz naqueles pensamentos distorcidos. Mencionava, como exemplo, um ou outro político sobre quem não havia nenhuma denúncia, nenhum indício de que tivesse usado o cargo que ocupava para aceitar valores provenientes de corrupção.
A Lei da Ficha Limpa
Sem ter como explicar, como se fosse um disco rachado, repetiam a mesma resposta de sempre: político é tudo igual. Como não havia possibilidade de abrir aquelas cabeças duras, resignado, desistia. Foi essa sensação de impotência, aliás, que ajudou a pavimentar o caminho para medidas como a Lei da Ficha Limpa.
Se a legislação não punir com perda de mandato e inelegibilidade, esses malfeitores travestidos de representantes do povo continuarão no poder, cometendo os mesmos delitos. Os eleitores têm memória curta, e a maioria não possui critério para a escolha de candidatos.
Esquecem em quem votaram
Em setembro de 2024, uma pesquisa encomendada pelo Instituto Cidades Sustentáveis ao IPEC revelou que, de cada 10 brasileiros, 7 não se lembravam em quem haviam votado em 2022 para deputados estaduais, federais e senadores. Como um eleitor pode fiscalizar e cobrar um político se nem ao menos sabe em quem votou?
Pelé foi muito criticado quando afirmou que os brasileiros não estavam preparados para votar. Muitos entenderam sua opinião como um ataque à democracia. Esses indignados distorceram suas palavras. O Rei nunca disse que os brasileiros não deveriam votar, mas sim que ainda não estavam preparados para ir às urnas.
Péssimas escolhas
Se analisarmos as eleições em época mais ou menos recente, vamos constatar que ele tinha razão. Pegando como exemplo o Rio de Janeiro, nas últimas três décadas, seis ex-governadores daquele estado foram presos. Ainda que um ou outro possa ter sido injustiçado, os números são muito eloquentes. É governador trancafiado para ninguém botar defeito.
Lutamos tanto pela redemocratização do país. Almejávamos liberdade para escolher quem desejássemos. Depois que os militares deixaram o poder, tivemos dois presidentes impichados e quatro que foram presos. Por isso, na percepção das pessoas, “é tudo farinha do mesmo saco”.
Teatro das tesouras
Sem contar aqueles que se diziam opositores e, no fim, acabaram por revelar que tudo não passava de um teatro das tesouras. Houve quem afirmasse, em alto e bom som, que seu “adversário” estava querendo retornar ao poder porque desejava voltar à cena do crime. Passado um tempo, lá estavam os dois de braços dados, fazendo juras de amor.
Os escândalos que abalaram o país nos últimos meses têm tudo para ser os mais graves da nossa história. A cada dia, novos fatos são revelados e novos crimes apontados. São bilhões desviados por empresários e políticos inescrupulosos. Todos aguardam o início das delações, que dizem ser as “do fim do mundo”, capazes de balançar a República.
Tudo como dantes
Já vimos esse filme. A expectativa hoje não é diferente daquela que mobilizou os brasileiros nos escândalos passados. E o que aconteceu? Não há um corrupto sequer que tenha continuado preso. Dá a impressão de que, nesses casos, o crime compensou. São muitos interesses e muita gente graúda envolvida nas falcatruas. Não é difícil imaginar como esses pauzinhos são traçados longe das nossas vistas.
Como lembra Norberto Bobbio, a democracia não falha apenas pelas instituições, mas pela forma como os cidadãos participam dela.
Só há uma maneira de resolver esse problema: pelo voto. Para isso, seria preciso uma população mais bem preparada, educada, consciente. Capaz de eleger aqueles que efetivamente desejam contribuir para o bem do país e a prosperidade da população. Por mais desanimador que seja, sempre há esperança. Este ano, boa parte do Legislativo poderá ser modificada. Quem sabe não seja esse o início que faltava.