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Como evitar que o ChatGPT contamine seu texto com os vícios da IA

A relação entre humanos e tecnologia evolui, mas é crucial manter o controle e a autenticidade na criação de conteúdo - Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Reinaldo Polito Publicado em 19/10/2025, às 10h00

Os números são estonteantes. E a fonte tem credibilidade. Sam Altman, CEO da OpenAI, revelou que 800 milhões de usuários ativos por semana navegam pelo ChatGPT. Nada se compara ao crescimento dessa população de aficionados em relação a outras invenções tecnológicas. O mundo abraçou esse dispositivo.

Portanto, se você já se tornou um deles, saiba que está muito bem acompanhado. Se uma pessoa for competente e desenvolver suas tarefas sem a ajuda desse modelo de inteligência artificial, continuará sendo bem-sucedida em suas atividades. Se, entretanto, essa mesma pessoa, com os mesmos atributos, contar com o auxílio desse recurso, será infinitamente mais eficiente.

A convivência entre o homem e a máquina

A relação entre nós e o ChatGPT é como a que tivemos com tantas outras invenções: primeiro o medo, depois a desconfiança, por fim, a dependência. Quando o computador surgiu, muitos acreditavam que ele roubaria empregos. Quando os celulares se popularizaram, achava-se que o convívio humano desapareceria. No fim, todos se adaptaram. O mesmo acontecerá com a inteligência artificial.

A diferença é que agora a parceria é mais íntima. Não se trata de uma ferramenta que apenas executa tarefas, mas de uma que parece dialogar e até aconselhar. É aí que mora o risco. A linha entre usar e ser usado é tênue. A tecnologia ajuda, mas quem deve continuar no comando é o autor, o criador, a mente viva por trás das palavras.

Os vícios que denunciam a máquina

O ChatGPT é um aluno brilhante, mas ainda tem tiques de linguagem que o entregam. Ele adora conectar ideias com expressões pomposas: “No entanto, é importante destacar que...”, “Dessa forma, podemos perceber que...”, “Nesse sentido, observa-se que...”. Soa erudito, mas frio. A IA é fluente, porém não é viva.

Os conectivos são importantes para dar sequência às frases, mas o uso exagerado, como se fosse uma obrigação, pode provocar interferências indevidas que revelam uma linguagem antinatural. A mudança nos elementos de coesão também ajuda.

Quem escreve com naturalidade prefere o caminho direto, como, por exemplo: “mas há um detalhe”, “o fato é que”, “mesmo assim”. São expressões que respiram, têm ritmo, criam proximidade — e é justamente isso que falta ao texto fabricado.

Como neutralizar a voz robótica

Evite também certas palavras que transformam o texto em parecer técnico: âmbito, crucial, cenário atual, por conseguinte, a fim de. Não são erros, são ruídos semânticos. O leitor sente que há algo impessoal, como se uma secretária eletrônica tivesse assumido o teclado.

Frases mais curtas, verbos no modo ativo e ritmo variado devolvem humanidade à escrita. Intercale períodos breves com outros um pouco mais longos. Isso cria melodia. Quando essa cadência aparece, a leitura flui como conversa.

Também se nota uma pegada perceptível, que vem do uso excessivo de travessões e de dois-pontos. Experimente pedir uma sugestão de título para um texto — pode esperar que oito em cada dez sugestões virão com dois-pontos. Até iniciantes no uso do ChatGPT percebem a mão da máquina.

O estilo pessoal ainda é rei

Se o texto parecer genérico, o leitor desliga. É o estilo que diferencia a mente humana do algoritmo. O humor, a ironia, a pausa intencional e o exemplo inesperado não podem ser reproduzidos por completo. A máquina pode até imitar o estilo, mas não entende a emoção que o originou.

Cada pessoa tem um jeito de dizer as coisas, um compasso de alma que não se copia. Por isso, quem usa o ChatGPT deve tratá-lo como editor auxiliar, nunca como autor. Ele pode aprimorar o texto, mas o brilho da ideia, a sutileza do olhar e o timbre da voz escrita pertencem a quem assina.

O toque humano

O ChatGPT é excelente. Orienta, revisa, mostra caminhos. Cuidado, todavia, para não se escravizar a ele. Não é porque ele diz algo que você deve seguir tudo ao pé da letra. Nada pode substituir sua experiência, presença de espírito, humor e tantos outros atributos que a máquina nem sempre capta. Se tiver certeza de que seu ponto de vista é o melhor, vá em frente.

O ChatGPT não ficará magoado porque você não aceitou a sugestão dele. Pelo contrário, vai tentar entender o motivo da sua resistência. Numa boa.

No fim das contas

Escrever continua sendo um ato de liberdade. Quem pensa e sente tem sempre a última palavra. O segredo está em usar a tecnologia sem deixar que ela use você. A máquina pode sugerir, mas é o coração humano que dá sentido e cor ao texto.

Ainda há quem negue o uso do ChatGPT. Mas basta ler três parágrafos para perceber: o sujeito jura que não usa — e o texto o entrega. Quem não domina a ferramenta parece um turista na praia, pescando com linha curta, enquanto o resto do mundo já navega em alto-mar. No fim das contas, não é o leitor que percebe o toque humano — é o texto que o faz sentir.

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