Reinaldo Polito Publicado em 12/07/2026, às 12h44
Tudo em silêncio em Brasília. De repente, uma bomba. Michelle Bolsonaro gravou, em uma das salas da sede do Partido Liberal (PL), um vídeo em que expôs a briga com o enteado Flávio Bolsonaro e lançou dúvidas sobre sua candidatura. Já surgiram as mais variadas explicações sobre o que a levou a gravá-lo. O fato foi tão surpreendente que, até agora, não se sabe ao certo como nasceu essa ideia.
Esta semana, fui a Brasília. Pelas minhas contas, já fiz essa viagem mais de 150 vezes. Sempre a trabalho. Em geral, são viagens rápidas, de dois a três dias, para ministrar cursos de oratória. O que não falta ali são políticos interessados em aprender a falar bem em público. A diversidade é empolgante. Partidos diferentes, experiências distintas, objetivos diversos. Não existe monotonia.
Uma cidade espetacular
Você já foi a Brasília? Se não foi, vale a pena reservar uns dois dias para conhecer a capital do país. É lá que tudo acontece. Mesmo que você more em uma pequena cidade do interior, saiba que o destino da sua vida, quase sempre, é definido em reuniões realizadas na Praça dos Três Poderes ou em algum prédio da Esplanada dos Ministérios.
Minhas idas a Brasília foram me ensinando um pouco sobre os mistérios da cidade. Espetacular! Ao mesmo tempo, estranha para mim. Afinal, fui criado em Araraquara, no interior de São Paulo, um município em que os quarteirões têm esquinas. No Plano Piloto, pelo menos para quem vem de fora, elas parecem não existir. Quando chega a noitinha e quero dar uma volta, deixo o hotel e vou... para onde? Aqui só tem farmácia. Ali só tem escola. Lá só tem hotéis. Bem diferente da minha cidade, onde tudo se mistura. Acho estranho, mas gosto, gosto muito, principalmente pelos amigos que conquistei ali.
Brasília é uma cidade acolhedora
Tenho a impressão de que Brasília só acolheu gente boa em seu seio. Não sei se isso se deve ao fato de ter sido formada por pessoas de todas as partes do país, que ali chegaram numa espécie de cumplicidade para construir a vida, ou se são os clubes, a arquitetura ou o fato de meu genro Rafael ter sido criado ali. Sei lá, mas o brasiliense é acolhedor e simpático.
Descobri também que há duas Brasílias. Uma é a da população local, formada por pessoas que labutam e se divertem ali no dia a dia. A outra é a dos políticos, que, em geral, chegam às terças e voltam às quintas. Quer fugir de um político? Fique em Brasília de sexta a segunda.
Tempestades no silêncio
O que sempre me impressionou na capital federal foi olhar pela janela do hotel e ver os edifícios dos ministérios simetricamente alinhados, com fachadas esverdeadas e sem sinais de vida. Nada, nenhum movimento. Mais à frente, a Praça dos Três Poderes, onde se encontram as sedes do Executivo, do Judiciário e do Legislativo, também parece, de longe, sem viva alma. Está certo que, quando tenho essa visão, já é noitinha. É natural que tudo esteja mesmo em silêncio.
Ocorre que, em Brasília, tão logo o dia amanhece, ficamos sabendo que aquela paradeira era apenas um equívoco de observação. Nas entranhas daqueles edifícios, tempestades estavam sendo gestadas. Sem que se perceba, ministros começam a perder seus postos, políticos traem ou são traídos e, em algumas situações, até presidentes despencam.
Canetadas noturnas
Olhe para Brasília. Preste bem atenção. Você também não vai perceber nada. No dia seguinte, entretanto, ficará surpreso ao descobrir que algumas canetadas na calada da noite ou a divulgação de um vídeo bombástico, como o de Michelle, talvez tenham mudado a história do país. E ficará mais impressionado ainda ao constatar que, passadas algumas horas ou alguns dias, o que parecia um verdadeiro inferno não passava da vida normal dessa cidade. Na maioria das vezes, tudo continua exatamente como era antes.
O vídeo de Michelle fez algum estrago, sim. Abriu uma fissura, obrigou Flávio a se explicar e foi seguido pela saída dela da presidência do PL Mulher. Ainda assim, Brasília tratou de absorver o impacto com a rapidez de sempre. O episódio, que parecia capaz de desarrumar todo o tabuleiro, passou a disputar espaço com outras crises, articulações e novidades.
Olhei, à noitinha, para os majestosos edifícios de Brasília e pensei: o que será que essa turma vai aprontar agora na calada da noite? Depois das aulas, deixei ali plantadas mais algumas preciosas sementes de amizade, o que me anima a voltar à capital do país cada vez com mais prazer. Quanto ao vídeo de Michelle, é esperar para ver. Afinal, em Brasília, novidades é que não faltam. Durma-se com um “silêncio” desses!
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