Dirigentes da própria legenda classificam articulação como “tragédia”, enquanto União Progressista, Republicanos e Podemos caminham para a neutralidade e deixam a definição do vice em aberto.
Ana Beatriz Silva Publicado em 24/07/2026, às 13h32
O senador Flávio Bolsonaro deve ser oficializado como candidato do PL à Presidência da República em meio a uma crescente insatisfação interna com a condução das negociações partidárias. Aliados da cúpula da legenda avaliam que a tentativa de atrair partidos do Centrão fracassou e já admitem que o parlamentar poderá entrar na campanha sustentado nacionalmente apenas pela estrutura do próprio partido.
Segundo relatos publicados por O Globo e confirmados por outros veículos, dirigentes do PL têm classificado como uma “tragédia” a articulação conduzida por Flávio e pelo senador Rogério Marinho, responsável pela coordenação política da campanha. A principal crítica é que as negociações teriam priorizado a montagem eleitoral da chapa, sem construir uma relação consistente com presidentes de partidos e lideranças nacionais.
O cenário deverá ficar evidente na convenção nacional do PL, marcada para este sábado, dia 25, em São Paulo. O evento deve confirmar a candidatura de Flávio, mas poderá terminar sem a apresentação do candidato a vice-presidente e sem o anúncio de uma coligação nacional. A campanha ainda possui prazo até 5 de agosto para tentar concluir as negociações.
Centrão caminha para a neutralidade
A federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, indica que não deverá apoiar formalmente Flávio no primeiro turno. Republicanos e Podemos também caminham para uma posição de neutralidade, permitindo que seus diretórios estaduais montem palanques e alianças diferentes conforme as disputas locais.
No Republicanos, mais de 80% dos integrantes consultados pela direção partidária seriam favoráveis à neutralidade, segundo informações da CNN Brasil. A decisão reduz as chances de o partido indicar o nome para a vaga de vice e aumenta a possibilidade de o PL formar uma chapa própria, com dois candidatos da legenda.
A neutralidade não representa necessariamente apoio formal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na prática, porém, impede que Flávio amplie seu tempo de propaganda, sua estrutura regional e sua rede de candidatos, prefeitos e parlamentares. Também permite que integrantes desses partidos negociem individualmente com candidaturas governistas ou oposicionistas nos estados.
Escolha do vice amplia tensão dentro do PL
A definição do vice tornou-se um dos principais pontos de conflito. Flávio demonstrou preferência por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e atualmente filiada ao Republicanos. A indicação, entretanto, enfrenta resistências dentro do próprio PL e não teria o apoio do presidente da legenda, Valdemar Costa Neto.
Aliados avaliam que Daniella possui pouca influência sobre a direção do Republicanos e não seria capaz de garantir o apoio formal da sigla. A insistência no nome também teria enfraquecido as negociações com outras lideranças do Centrão que esperavam participar diretamente da construção da chapa.
Sem um acordo partidário, a campanha poderá escolher uma mulher filiada ao próprio PL ou deixar a decisão para os últimos dias do período de convenções. Rogério Marinho já afirmou que a definição depende do resultado das conversas com Republicanos, União Brasil e PP.
Polêmicas aumentaram resistência
O afastamento dos partidos de centro também foi intensificado por episódios recentes envolvendo o pré-candidato. Lideranças do Centrão criticaram declarações de Flávio sobre as urnas eletrônicas e consideraram que a retomada de questionamentos sobre o sistema de votação dificulta uma aproximação com setores moderados.
Flávio afirmou que o Brasil utilizaria equipamentos produzidos pela empresa Smartmatic. A informação, no entanto, é negada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Segundo o TSE, a empresa não fornece urnas nem programas usados no sistema brasileiro de votação, que foi desenvolvido e é administrado pela própria Justiça Eleitoral.
Dirigentes partidários também apontam que crises internas no bolsonarismo e divergências públicas com Michelle Bolsonaro contribuíram para ampliar a percepção de desorganização. Para integrantes do Centrão, a neutralidade preserva a autonomia dos candidatos estaduais e evita que as siglas sejam vinculadas às polêmicas da campanha presidencial.
Isolamento afeta tempo de TV e palanques estaduais
Uma candidatura sustentada apenas pelo PL teria menos tempo de propaganda eleitoral do que uma chapa formada com grandes partidos. Flávio também perderia o acesso direto às estruturas regionais do Centrão, que reúne prefeitos, governadores, deputados e candidatos competitivos em diferentes estados.
O impacto pode alcançar as eleições para o Congresso. Dirigentes do PL temem que candidatos a deputado, senador e governador reduzam o envolvimento na campanha presidencial caso considerem que a chapa possui poucas chances de vitória ou dificuldade para ampliar sua votação fora do eleitorado mais identificado com o bolsonarismo.
Apesar do cenário adverso, o PL possui uma das maiores bancadas do Congresso, recursos eleitorais próprios e uma estrutura nacional capaz de garantir presença relevante na televisão e nos estados. A campanha também trabalha para formar pelo menos 20 palanques estaduais, mesmo que os acordos não resultem em apoio formal das direções nacionais de outros partidos.
Campanha ainda busca reverter o cenário
A direção da campanha pretende manter as negociações até o encerramento das convenções, em 5 de agosto. A estratégia é utilizar alianças estaduais já encaminhadas com partidos de centro para tentar convencer suas executivas nacionais de que o apoio a Flávio também poderia beneficiar candidatos ao Congresso e aos governos estaduais.
O calendário eleitoral determina que as candidaturas sejam registradas até 15 de agosto. A propaganda eleitoral nas ruas e na internet começa oficialmente no dia seguinte. Até lá, o PL terá de definir o vice, organizar os palanques estaduais e decidir se insistirá na aproximação com o Centrão ou assumirá uma candidatura nacional praticamente isolada.