Presidente relata conversa com ministro do STF e afirma que situação pode afetar imagem da Corte durante entrevista
Erika Osti Publicado em 08/04/2026, às 15h37
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (8) que orientou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, a se declarar impedido de julgar processos relacionados ao caso envolvendo o Banco Master. A declaração foi feita em entrevista ao portal ICL, em meio ao avanço das investigações sobre fraudes atribuídas à instituição financeira do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo Lula, a recomendação foi feita diretamente ao magistrado, com o objetivo de preservar sua trajetória no Judiciário.
Você construiu uma biografia histórica neste país com o julgamento do 8 de janeiro. Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora sua biografia”, disse o presidente ao relatar a conversa.
O contexto envolve a atuação do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, que teria prestado serviços ao Banco Master. Dados da Receita Federal encaminhados à CPI do Crime Organizado apontam que o escritório recebeu R$ 80,2 milhões da instituição entre 2024 e 2025.
Lula destacou que, embora não haja ilegalidade comprovada, a situação pode gerar desgaste público. “Você pode ter uma coisa que é legal, mas, nas circunstâncias, o povo trata como imoral”, afirmou. Para o presidente, a declaração de impedimento em eventuais julgamentos seria uma forma de reforçar a credibilidade do Supremo.
Na entrevista, o presidente sugeriu ainda que Moraes deixe claro que não participou das atividades profissionais do escritório e que, por isso, deve se afastar de qualquer decisão relacionada ao caso.
Diga que sua mulher estava advogando e que você se sentirá impedido de votar qualquer coisa”, afirmou.
Procurado, o escritório Barci de Moraes declarou não confirmar as informações sobre os valores e alegou que dados fiscais são sigilosos. Já o ministro Alexandre de Moraes não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem sobre as declarações do presidente nem sobre os dados apresentados pela CPI.
Além dos contratos, o caso também ganhou repercussão após relatos de que Moraes teria viajado em aeronaves ligadas a empresas associadas a Vorcaro. O gabinete do ministro negou as informações e classificou as acusações como “absolutamente falsas”, afirmando que ele nunca utilizou aviões do empresário.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central no fim de 2025 após a identificação de irregularidades financeiras. Vorcaro está preso desde março e negocia um possível acordo de delação premiada, hipótese que também foi comentada por Lula. O presidente disse que a colaboração é válida, mas alertou para riscos.
“Delação é sempre delicada. Tem que ter cuidado para não ser uma delação comprada”, afirmou.
Para Lula, o episódio tem potencial de afetar não apenas os envolvidos, mas a imagem institucional do STF, especialmente em um momento de forte polarização política no país.