Na abertura da Feira Brasil na Mesa, em Planaltina, presidente destacou o papel da Embrapa, pediu mais investimento em pesquisa, defendeu a valorização da produção nacional e associou inovação no campo à geração de emprego, renda e competitividade. O evento marca os 53 anos da estatal de pesquisa agropecuária.
Ana Beatriz Publicado em 23/04/2026, às 18h11
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou nesta quinta-feira, 23 de abril, da abertura da Feira Brasil na Mesa, realizada na Embrapa Cerrados, em Planaltina, no Distrito Federal, em um evento que também celebrou os 53 anos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A feira foi apresentada pelo governo como uma vitrine da diversidade alimentar brasileira, com exposições, produtores, pesquisas, degustações e demonstrações de tecnologias voltadas à produção de alimentos.
No discurso, Lula centrou sua fala na defesa da produção nacional de alimentos com mais qualidade, maior valor agregado e maior presença no mercado brasileiro. Ao argumentar que o país precisa conhecer melhor o que produz em cada região, o presidente voltou a defender a expansão do consumo interno como estratégia complementar às exportações. Em uma das principais mensagens do evento, afirmou que o Brasil precisa mostrar ao próprio país a variedade e a capacidade de sua produção agrícola, ao mesmo tempo em que melhora padrão, sofisticação e competitividade. O próprio Planalto destacou esse eixo ao resumir a fala do presidente com a afirmação de que, para ganhar mercado, é preciso produzir com excelência de qualidade.
A cerimônia reuniu autoridades do governo federal, representantes da Embrapa, ministros e parlamentares. Na abertura, Lula mencionou a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, em referência ao papel que ela passou a exercer junto à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Em março, a FAO anunciou Janja como Campeã da Boa Vontade contra a Fome, função ligada à promoção da segurança alimentar, ao combate à fome e ao fortalecimento de sistemas agroalimentares sustentáveis.
Ao longo da fala, o presidente fez um elogio enfático à Embrapa e afirmou que a estatal é uma das principais instituições de excelência do país. Lula defendeu que a empresa tenha financiamento mais robusto e menos dependência de negociações permanentes por orçamento, sob o argumento de que a pesquisa agropecuária é decisiva para ampliar produtividade, qualidade e capacidade de competição do Brasil nos mercados nacional e internacional. A celebração dos 53 anos da Embrapa funcionou, no discurso, como pano de fundo para uma defesa explícita do papel da ciência pública no agronegócio e na segurança alimentar. A Embrapa foi criada em 1973 e é hoje o principal braço federal de pesquisa agropecuária do país.
Lula também associou a produção agrícola à necessidade de inovação tecnológica e de abertura de novos mercados. Durante o pronunciamento, ele afirmou que exportar segue sendo importante, mas insistiu que o tamanho do mercado consumidor brasileiro permite absorver parte relevante da produção nacional, sobretudo de frutas e alimentos regionais ainda pouco conhecidos fora de seus estados de origem. O presidente usou esse argumento para sustentar a ideia de que integrar produção, pesquisa, distribuição e consumo interno pode ampliar renda, escala e oportunidades para produtores rurais.
Outro ponto central da fala foi a defesa de uma agricultura mais sofisticada e com maior valor agregado. Lula afirmou que não basta produzir em quantidade. Segundo ele, a disputa por mercados exige padrão elevado de qualidade, pesquisa aplicada e melhoria contínua. O discurso ocorreu justamente em uma feira criada para aproximar ciência, inovação e produção de alimentos, com programação entre 23 e 25 de abril na Embrapa Cerrados. A proposta do evento, segundo material oficial, é conectar pesquisa, produtores e consumidores, com espaço para vitrines tecnológicas, programação técnica e feira de expositores.
O presidente também aproveitou a cerimônia para defender maior articulação internacional do Brasil na área de alimentos e tecnologia agrícola. Em sua fala, citou o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma oportunidade de ampliar mercados e mencionou a necessidade de o país chegar mais preparado para negociar com base em qualidade, escala e diversificação produtiva. Embora o acordo ainda enfrente resistências políticas e jurídicas em países europeus, Lula sinalizou otimismo com o potencial do Brasil de ampliar presença comercial em um mercado ampliado.
Em outro trecho do pronunciamento, Lula defendeu que o Brasil amplie a cooperação com países africanos por meio da transferência de conhecimento, especialmente nas áreas de formação universitária, agricultura e tecnologia. A fala foi apresentada como parte de uma visão de reparação histórica e de ampliação do papel brasileiro em políticas de desenvolvimento e segurança alimentar no Sul Global. Essa linha é coerente com o discurso internacional recente do governo, que vem reforçando a cooperação com países africanos e a defesa de alianças voltadas ao combate à fome e à pobreza.
Lula ainda incluiu no discurso observações sobre transição energética e biocombustíveis. Ao lembrar agenda recente na Alemanha, mencionou testes com combustível brasileiro e argumentou que a tecnologia nacional pode ajudar a reduzir emissões, em vez de simplesmente importar soluções mais caras. A fala foi alinhada ao esforço do governo de promover o Brasil como fornecedor de energia mais limpa e de defender o papel dos biocombustíveis na reindustrialização e na agenda climática.
Na parte final, o presidente endureceu o tom contra a desinformação e criticou o uso político de conteúdos falsos nas redes sociais. Também mencionou medidas recentes voltadas ao reforço da segurança pública, como novas vagas na Polícia Federal, ao argumentar que o governo pretende ampliar a capacidade do Estado no combate ao crime organizado. Mesmo fora do eixo principal da feira, essas declarações mostraram que o discurso extrapolou o tema agrícola e incorporou recados políticos mais amplos, em um momento de crescente polarização no ambiente digital e institucional.
A abertura da Feira Brasil na Mesa acabou, assim, servindo a dois propósitos simultâneos. De um lado, celebrou a trajetória da Embrapa e a diversidade produtiva do país. De outro, foi usada por Lula para reforçar uma visão de desenvolvimento apoiada em pesquisa pública, mercado interno, agregação de valor, exportação com mais qualidade e protagonismo brasileiro no debate global sobre alimentos, energia e combate à fome.