Aliados do presidente Lula procuraram dirigentes da União Progressista em uma tentativa de evitar o apoio formal da federação ao pré candidato do PL. Maioria das lideranças defende neutralidade nacional, mas Ciro Nogueira afirma que ainda não há decisão definitiva.
Ana Beatriz Silva Publicado em 24/07/2026, às 13h19
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atuou nos bastidores para convencer dirigentes do Progressistas e do União Brasil a não formalizarem apoio à pré candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Segundo apuração do blog do jornalista Valdo Cruz, no g1, integrantes do governo e aliados do presidente mantiveram conversas com lideranças da federação União Progressista. O objetivo seria estimular uma posição de neutralidade na disputa pelo Palácio do Planalto e impedir que os dois partidos integrassem oficialmente o palanque nacional do pré candidato do PL.
A movimentação também foi relatada em outra apuração, segundo a qual emissários de Lula conversaram, com o aval do Palácio do Planalto, com dirigentes do PP, do União Brasil e do Republicanos. A estratégia seria evitar que Flávio Bolsonaro concentrasse o apoio dos principais partidos do chamado Centrão e ampliasse sua estrutura eleitoral.
Apoio daria estrutura e capilaridade à campanha
Uma aliança nacional com a União Progressista seria considerada estratégica para Flávio Bolsonaro. Além de reunir lideranças políticas em diferentes regiões do país, a federação poderia ampliar a estrutura partidária, o alcance territorial, os recursos eleitorais e a participação do candidato na propaganda de rádio e televisão.
Flávio intensificou as conversas com o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, e com o presidente do União Brasil e da federação, Antonio Rueda. As negociações buscavam transformar apoios regionais já existentes em uma aliança nacional.
A entrada formal do PP e do União Brasil fortaleceria especialmente a organização da campanha nos estados, onde as duas siglas possuem governadores, prefeitos, parlamentares e estruturas partidárias consolidadas.
Para o governo Lula, manter a federação neutra significa impedir que essa estrutura seja incorporada integralmente à campanha adversária. A neutralidade, no entanto, não representa apoio automático à reeleição do presidente.
Maioria do PP defenderia neutralidade
A possibilidade de neutralidade ganhou força depois de uma reunião realizada por dirigentes do PP. Segundo apuração da CNN Brasil, Ciro Nogueira consultou integrantes do partido e teria identificado que aproximadamente 90% das lideranças ouvidas eram favoráveis à ausência de um posicionamento nacional.
O argumento predominante é que a neutralidade permitiria aos diretórios estaduais construir alianças de acordo com a realidade política de cada região.
O PP e o União Brasil possuem grupos próximos de Lula, principalmente em estados do Nordeste, mas também reúnem lideranças alinhadas ao bolsonarismo e a governos de direita no Centro Oeste, no Sul e no Sudeste. Uma posição nacional obrigatória poderia provocar conflitos internos e prejudicar candidaturas estaduais e parlamentares.
A decisão de não participar oficialmente de nenhum palanque presidencial permitiria que os dirigentes locais apoiassem diferentes candidaturas sem romper a federação.
São Paulo já declarou apoio a Flávio
A diferença entre a estratégia nacional e as alianças estaduais ficou evidente em São Paulo. Os diretórios paulistas do PP e do União Brasil oficializaram apoio a Flávio Bolsonaro durante evento realizado na Assembleia Legislativa do Estado.
Na ocasião, lideranças da União Progressista em São Paulo afirmaram que não adotariam neutralidade no estado, mesmo que a direção nacional decidisse não apoiar formalmente nenhum candidato à Presidência.
O cenário demonstra que uma eventual neutralidade nacional não impediria Flávio de receber apoio regional de integrantes da federação. A diferença é que o pré candidato não poderia apresentar PP e União Brasil como integrantes oficiais de sua coligação presidencial.
Federação reúne PP e União Brasil
A União Progressista foi registrada oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral em 26 de março de 2026. A federação é formada pelo União Brasil e pelo Progressistas e tem Antonio Rueda como presidente nacional.
Pelas regras eleitorais, uma federação deve permanecer unida durante pelo menos quatro anos. Nesse período, seus partidos passam a atuar conjuntamente nas disputas eleitorais e nas Casas Legislativas, embora preservem nomes, siglas, filiados e acesso aos recursos partidários.
Por isso, a definição sobre a eleição presidencial não depende apenas do posicionamento de Ciro Nogueira ou do PP. A decisão precisa considerar também a direção do União Brasil e os interesses políticos das duas legendas nos estados.
Ciro Nogueira nega decisão definitiva
Apesar das informações divulgadas nos bastidores, Ciro Nogueira negou ter comunicado oficialmente a Flávio Bolsonaro que o PP permaneceria neutro. Por meio de sua assessoria, o senador afirmou que as negociações continuam e que ainda não existe uma decisão definitiva sobre o apoio presidencial.
O dirigente também negou que tenha ocorrido uma reunião específica para informar o pré candidato sobre a neutralidade. Outras lideranças do partido, porém, sustentam reservadamente que a posição majoritária é permanecer fora das coligações presidenciais no primeiro turno.
A divergência mostra que o assunto ainda está em negociação. Embora diferentes veículos apontem a neutralidade como tendência consolidada, uma confirmação depende de anúncio ou deliberação formal da direção da União Progressista.
Decisão pode redesenhar alianças
Caso a neutralidade seja confirmada, Flávio Bolsonaro terá de concentrar esforços na aproximação com outras legendas para ampliar sua coligação. Republicanos e Podemos aparecem entre os partidos procurados pelo pré candidato, mas também enfrentam divisões internas e disputas regionais.
Para Lula, a ausência do PP e do União Brasil no palanque adversário representaria uma vitória estratégica, mesmo que a federação também não apoie formalmente sua candidatura.
O governo procura preservar pontes com lideranças do Centrão, grupo que possui peso significativo no Congresso Nacional e pode ser decisivo tanto durante a campanha quanto na formação da base parlamentar do próximo governo.
A disputa pela União Progressista, portanto, vai além de uma declaração de apoio. Ela envolve tempo de propaganda, estrutura partidária, alianças estaduais, recursos eleitorais e a capacidade dos candidatos de construir maioria no Congresso após as eleições.