Decano do STF afirma que participação de magistrado em negociações de colaboração premiada contraria a legislação e manifesta preocupação com a condução das investigações
Redação Publicado em 23/06/2026, às 14h10
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou a atuação do colega André Mendonça na condução de questões ligadas às tentativas de acordo de colaboração premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em entrevista ao programa Roda Viva, exibida na última segunda-feira (22), o decano da Corte afirmou que houve uma irregularidade ao envolver o relator do caso em discussões sobre uma possível delação.
Segundo Gilmar, a legislação brasileira estabelece que negociações desse tipo devem ocorrer exclusivamente entre o investigado, a Polícia Federal e o Ministério Público, sem participação do magistrado responsável pelo processo. Para o ministro, qualquer aproximação do juiz com tratativas dessa natureza representa um desvio do procedimento previsto em lei.
Entenda
As declarações de Gilmar Mendes foram feitas após André Mendonça revelar, durante um julgamento no STF, que foi procurado por integrantes da defesa de Daniel Vorcaro com uma proposta inicial de colaboração premiada. O ministro afirmou, porém, que não teve acesso ao conteúdo do material apresentado.
Na mesma sessão, Mendonça ressaltou que a iniciativa não envolveu o advogado José Luís de Oliveira Lima, conhecido como Juca, que deixou a defesa do ex-banqueiro em maio deste ano.
Nova delação
Gilmar também comentou as dificuldades enfrentadas por Vorcaro para firmar um acordo de delação premiada. De acordo com ele, as negativas anteriores da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República reduzem, neste momento, as chances de homologação de uma nova colaboração. Ainda assim, ponderou que o cenário pode mudar caso surjam fatos novos ou elementos considerados relevantes para as investigações.
Nos bastidores, aliados do ex-banqueiro afirmam que uma terceira proposta está em preparação e deverá ser encaminhada à Polícia Federal nos próximos dias. A expectativa é que o material contenha informações mais consistentes do que as apresentadas anteriormente. Investigadores, porém, avaliam que uma eventual colaboração só avançará caso traga provas concretas e fatos inéditos envolvendo os supostos esquemas investigados.
Menção à Lava Jato
Durante a entrevista, Gilmar Mendes também demonstrou preocupação com a condução do caso envolvendo o Banco Master. O ministro apontou situações que, em sua avaliação, lembram problemas observados durante a Operação Lava Jato, como mudanças de relatoria, divulgação de informações sigilosas e prisões de familiares de investigados.
Ao citar a operação que marcou o combate à corrupção na última década, o decano afirmou que alertas feitos à época acabaram se confirmando posteriormente. Segundo ele, episódios revelados anos depois expuseram falhas e excessos que servem como advertência para evitar a repetição de práticas semelhantes em investigações atuais.