Na abertura da Cúpula de Líderes do G20, realizada no Rio de Janeiro nesta segunda-feira (18), o presidente apresentou uma proposta audaciosa ao lançar a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza
William Oliveira Publicado em 18/11/2024, às 11h46
Na abertura da Cúpula de Líderes do G20, realizada no Rio de Janeiro nesta segunda-feira (18), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, apresentou uma proposta audaciosa ao lançar a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Esta iniciativa integra os esforços do Brasil na liderança do grupo das 20 principais economias mundiais.
Em seu discurso, o presidente Lula evocou as palavras do renomado cientista social e geógrafo Josué de Castro, destacando que "a fome é a manifestação biológica de problemas sociais".
"A fome é a expressão biológica dos males sociais. É produto de decisões políticas que perpetuam a exclusão de grande parte da humanidade", disse o presidente.
Lula convocou os líderes presentes à mesa para assumirem a responsabilidade urgente de erradicar essa "chaga que envergonha a humanidade". Ele destacou que a presidência brasileira do G20 almeja deixar como principal legado o estabelecimento desta aliança global, afirmando que tal iniciativa é crucial para a construção de sociedades mais prósperas e para a promoção de um mundo pacífico.
O presidente enfatizou que a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza buscará implementar recomendações internacionais eficazes, desenvolver políticas públicas robustas e identificar fontes viáveis de financiamento. A proposta visa integrar esforços globais na luta contra essas questões críticas, com o objetivo de alcançar mudanças sustentáveis e duradouras.
Leia o discurso na íntegra:
"Caros Chefes de Estado e de Governo,
Dirigentes de Organizações Internacionais,
Demais Chefes de Delegação,
Minhas amigas e meus amigos,
Sejam bem-vindos ao G20.
Sejam bem-vindos ao Rio de Janeiro.
Esta cidade é a síntese dos contrastes que caracterizam o Brasil, a América Latina e o mundo.
De um lado, a beleza exuberante da natureza sob os braços abertos do Cristo Redentor.
O retrato vivo de desigualdades históricas persistentes.
Estive na primeira reunião de líderes do G20, convocada em Washington no contexto da crise financeira de 2008.
Dezesseis anos depois, constato com tristeza que o mundo está pior.
Temos o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e a maior quantidade de deslocamentos forçados já registrada.
Os fenômenos climáticos extremos mostram seus efeitos devastadores em todos os cantos do planeta.
As desigualdades sociais, raciais e de gênero se aprofundam, na esteira de uma pandemia que ceifou mais de 15 milhões de vidas.
O símbolo máximo na nossa tragédia coletiva é a fome e a pobreza.
Segundo a FAO, em 2024, convivemos com um contingente de 733 milhões de pessoas ainda subnutridas.
É como se as populações do Brasil, México, Alemanha, Reino Unido, África do Sul e Canadá, somadas, estivessem passando fome.
São mulheres, homens e crianças, cujo direito à vida e à educação, ao desenvolvimento e à alimentação são diariamente violados.
Em um mundo que produz quase 6 bilhões de toneladas de alimentos por ano, isso é inadmissível.
Em um mundo cujos gastos militares chegam a 2,4 trilhões de dólares, isso é inaceitável.
A fome e a pobreza não são resultados da escassez ou de fenômenos naturais.
A fome, como dizia o cientista e geógrafo brasileiro Josué de Castro, "a fome é a expressão biológica dos males sociais".
É produto de decisões políticas, que perpetuam a exclusão de grande parte da humanidade.
O G20 representa 85% dos 110 trilhões de dólares do PIB mundial.
Também responde por 75% dos 32 trilhões de dólares do comércio de bens e serviços e dois terços dos 8 bilhões de habitantes do planeta.
Compete aos que estão aqui em volta desta mesa a inadiável tarefa de acabar com essa chaga que envergonha a humanidade.
Por isso, colocamos como objetivo central da presidência brasileira no G20 o lançamento de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
Essa é uma condição imprescindível para construir sociedades mais prósperas e um mundo de paz.
Não por acaso, esses são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 1 e 2 da Agenda 2030.
Com a Aliança, vamos articular recomendações internacionais, políticas públicas eficazes e fontes de financiamento.
O Brasil sabe que é possível.
Com a participação ativa da sociedade civil, concebemos e implementamos programas de inclusão social, de fomento da agricultura familiar e da segurança alimentar e nutricional, como o nosso Bolsa Família e o Programa Nacional de Alimentação Escolar.
Conseguimos sair do Mapa da Fome da FAO em 2014, para o qual voltamos em 2022, em um contexto de desarticulação do Estado de bem-estar social.
Foi com tristeza que, ao voltar ao governo, encontrei um país com 33 milhões de pessoas famintas.
Em um ano e onze meses, o retorno desses programas já retirou mais de 24, 5 milhões de pessoas da extrema pobreza.
Aqueles que sempre foram invisíveis estarão ao centro da agenda internacional.
Já contamos com a adesão de 81 países, 26 organizações internacionais, 9 instituições financeiras e 31 fundações filantrópicas e organizações não-governamentais.
Meus agradecimentos a todos os envolvidos na concepção e no funcionamento desta iniciativa, que já anunciaram contribuições financeiras.
Foi um ano de trabalho intenso, mas este é apenas o começo.
A Aliança nasce no G20, mas seu destino é global.
Que esta cúpula seja marcada pela coragem de agir.
Por isso quero declarar oficialmente lançada a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
Muito obrigado."