Relatórios da Comissão Parlamentar de Inquérito revelam repasses milionários para firmas ligadas ao escândalo envolvendo patrocínio do Corinthians e empresas registradas em nomes de terceiros, aprofundando suspeitas de lavagem e ocultação de recursos.
Ana Beatriz Publicado em 18/03/2026, às 21h23
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS no Congresso revelou um sofisticado esquema de movimentação de recursos envolvendo o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, que usa empresas de fachada para mascarar o destino de recursos em meio às investigações por fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas. Relatórios técnicos apresentados pela comissão mostram que Antunes fez repasses milionários para empresas com características de “contas de passagem”, incluindo uma firma citada no escândalo de desvio de patrocínio da Vai de Bet ao Sport Club Corinthians Paulista e outra registrada em nome de uma mulher de 90 anos já falecida.
Os repasses identificados partiram da Arpar Participação e Empreendimentos, uma das empresas controladas por Careca, que entre setembro de 2023 e janeiro de 2025 movimentou R$ 445,2 milhões em suas contas bancárias, segundo dados analisados pela CPMI.
Uma das empresas que recebeu recursos da Arpar foi a Wave Intermediação, que teve R$ 1,05 milhão transferidos do CNPJ vinculado ao empresário. Registrada em nome de um motoboy e com endereço em uma quitinete na Lapa, em São Paulo, a Wave apresenta movimentações absolutamente discrepantes: suas contas bancárias movimentaram R$ 4,85 bilhões de 2023 a 2025, conforme a quebra de sigilo fiscal compartilhada pela Receita Federal com a comissão.
A Wave já havia sido mencionada no noticiário policial no âmbito da denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra o ex‑presidente do Corinthians, Augusto Melo, acusado de desviar recursos do contrato de patrocínio do clube com a casa de apostas Vai de Bet. Naquele caso, a empresa também atuou como uma “conta de passagem”, facilitando o desvio de recursos por meio de movimentações complexas entre CNPJs de fachada.
Outro exemplo citado pelos parlamentares é a Premier Indústria e Comércio LTDA, que, no papel, pertenceu a Diva Ribeiro Calil, uma idosa que tinha 90 anos e faleceu em setembro último. A Arpar teria enviado à Premier cerca de R$ 6,9 milhões, enquanto as contas da firma movimentaram R$ 297,1 milhões entre 2023 e 2025. Mesmo após o falecimento formal da suposta proprietária, a Premier continuou a movimentar valores significativos — cerca de R$ 65,7 milhões em 2025, levantamento que chamou atenção dos técnicos da CPMI.
Esquema complexo e pulverização de recursos
Segundo a comissão, a lógica por trás desses repasses foi “pulverizar valores entre diferentes CNPJs” para dificultar o rastreamento do dinheiro e dificultar investigações. Essa prática é frequentemente utilizada em esquemas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, conforme apontado pelos técnicos que analisaram os dados das quebras de sigilo.
O caso faz parte de uma apuração mais ampla conduzida pela CPMI do INSS, que investiga um esquema de descontos indevidos aplicados em aposentadorias e pensões por meio de associações e entidades sem autorização legal — uma fraude que já resultou em operações da Polícia Federal e prisões no âmbito da Operação Sem Desconto.
Repercussão e próximos passos
A divulgação dos resultados pela CPMI provocou reação de parlamentares que defendem aprofundar a investigação sobre o uso de empresas de fachada e as ligações entre pessoas físicas, empresas envolvidas no esquema e as movimentações bilionárias que não condizem com a suposta atividade real dos CNPJs.
A comissão também já aprovou pedidos de acareações e quebra de sigilos adicionais, buscando confrontar declarações e rastrear outras possíveis ramificações do esquema.
O empresário, que já tinha sido alvo de mandados de prisão em operações anteriores, negou participação em fraudes ligadas aos descontos indevidos, mas as descobertas sobre a movimentação de valores através de empresas de fachada aprofundam as suspeitas de que há uma rede complexa para ocultar a origem e o destino de recursos.