Início cauteloso após um ano de desgaste

Câmara inicia 2026 sob cautela de Hugo Motta após ano de forte desgaste político

Presidente da Casa aposta em pauta amena até o Carnaval, evita novas polêmicas e tenta recompor relações após promessas contraditórias, embates com o STF e pressão da oposição

A Câmara deve evitar novas CPIs e focar em pautas que promovam a governabilidade e a estabilidade institucional - Imagem: Reprodução/Lula Marques/Agência Brasil

Letícia Sales Publicado em 02/02/2026, às 08h54

A Câmara dos Deputados realiza nesta segunda-feira (2) a primeira sessão legislativa de 2026 sob o comando de Hugo Motta (Republicanos-PB), que inicia o novo ano apostando em uma agenda menos conflituosa. Fragilizado politicamente ao fim de 2025, o presidente da Casa tenta reduzir tensões com líderes partidários e evitar novos desgastes em um plenário ainda marcado pela polarização.

Eleito em fevereiro do ano passado com ampla maioria, 444 votos dos 513 deputados, Motta enfrentou dificuldades para conduzir a Câmara em meio a disputas entre governo, oposição e o Judiciário. Nos bastidores, promessas contraditórias feitas durante sua articulação eleitoral, especialmente em torno do projeto que concede anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, acabaram cobrando um alto preço ao longo do ano.

Para este início de trabalhos, Motta sinalizou aos líderes que pretende priorizar matérias consensuais. Entre elas está a Medida Provisória que cria o programa Gás do Povo, considerada estratégica pelo Palácio do Planalto e prestes a perder validade. A proposta deve ser votada nas próximas semanas e integra o esforço do governo Lula para ampliar políticas sociais em ano pré-eleitoral.

Ao mesmo tempo, o presidente da Câmara tenta se afastar de temas explosivos. A eventual instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master, por exemplo, não deve partir da Casa. A avaliação interna é de que novas CPIs podem ampliar o desgaste institucional e dificultar a governabilidade.

Promessas cruzadas e desgaste acumulado

O ponto mais sensível da gestão Motta foi o avanço do projeto de anistia, aprovado em dezembro com apoio decisivo do Centrão. O texto frustrou a esquerda e não atendeu integralmente à oposição bolsonarista, que defendia o perdão total. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou veto à proposta e assinou o ato simbolicamente em 8 de janeiro, data que marcou três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes.

Além disso, Motta teve sua imagem abalada pela condução de processos de cassação de parlamentares envolvidos em casos de grande repercussão. A perda de mandato de nomes como Chiquinho Brazão, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem, além da crise envolvendo Carla Zambelli e o desfecho do processo contra Glauber Braga, expuseram tensões entre a Câmara, o Supremo Tribunal Federal e diferentes alas do Congresso.

Conflitos, recuos e agenda travada

O presidente também foi alvo de críticas pela resposta a ocupações da Mesa Diretora, protagonizadas tanto pela oposição quanto por aliados. Recuos disciplinares, processos engavetados e denúncias de agressões a jornalistas durante protestos ampliaram o desgaste político e institucional da Presidência da Câmara ao longo de 2025.

No campo legislativo, pautas estruturantes anunciadas como prioridade, como a reforma administrativa, não avançaram. Propostas sensíveis nas áreas de segurança pública e combate às facções criminosas também foram adiadas diante da resistência de governadores, bancadas estaduais e especialistas, que apontaram riscos à autonomia federativa e falta de diálogo com o Legislativo.

Ano começa sob teste

Com um histórico recente marcado por conflitos e dificuldades de articulação, Hugo Motta inicia 2026 tentando reorganizar a base política e reduzir ruídos. A estratégia de uma pauta mais leve até o Carnaval busca ganhar tempo, reconstruir pontes e evitar que o novo ano repita o cenário de desgaste que marcou sua gestão anterior.

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