Com 7 milhões de seguidores nas redes sociais e 6,4 milhões no YouTube, frei Gilson tornou-se um dos nomes usados para atrair católicos
Jair Viana Publicado em 13/03/2025, às 22h00
O bolsonarismo intensifica sua penetração em comunidades religiosas, replicando táticas bem-sucedidas com evangélicos para avançar sobre a Igreja Católica. A estratégia, que inclui a aproximação com figuras midiáticas como o frei Gilson — que reuniu 1 milhão de espectadores em uma live às 4h durante a Quaresma —, busca associar a ideologia de Jair Bolsonaro (PL) à defesa de "valores cristãos". O movimento, porém, encontra base mais sólida nas igrejas evangélicas, onde líderes como o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, atuam como porta-vozes diretos da agenda bolsonarista.
Com 7 milhões de seguidores nas redes sociais e 6,4 milhões no YouTube, frei Gilson tornou-se um dos nomes usados para atrair católicos. Sua popularidade, porém, ainda é distante da influência de Malafaia, que há anos mistura sermões com discurso político, posicionando-se como defensor de pautas conservadoras e aliado de Bolsonaro. O pastor, conhecido por ataques a adversários e por mobilizar fiéis em campanhas eleitorais, personifica a fusão entre religião e projeto de poder, modelo que o bolsonarismo tenta adaptar ao catolicismo.
A tática envolve a "guerra cultural", com temas como combate à "ideologia de gênero", crítica a políticas ambientais e defesa da "família tradicional". Nas igrejas evangélicas, essa narrativa já consolidou Bolsonaro como "candidato de Deus". Agora, o desafio é replicar o feito entre católicos, grupo mais diverso e menos alinhado a uma única liderança. A live do frei Gilson, por exemplo, evitou menções explícitas a partidos, mas ecoou críticas a "censura" e "perseguição a cristãos" — retórica carregada de sentidos políticos.
Especialistas alertam que a investida sobre as igrejas visa ampliar a base eleitoral do bolsonarismo para 2026. "É uma estratégia de ocupação de espaços simbólicos. Nas assembleias, Malafaia já mostra que o púlpito pode ser um palanque. Com católicos, tentam criar novos líderes que liguem religião a uma visão de mundo antiliberal", analisa um pesquisador de religião e política, sob anonimato.
Apesar do crescimento de figuras como frei Gilson, a influência bolsonarista ainda esbarra na estrutura fragmentada da Igreja Católica, onde setores progressistas criticam a instrumentalização da fé. Já entre evangélicos, a adesão a Bolsonaro é mais orgânica, com pastores como Malafaia operando redes de comunicação próprias e financiamento milionário para campanhas.
Enquanto isso, setores do catolicismo resistem. "A Igreja não é palanque. Querem importar o radicalismo evangélico, mas aqui a politização esvazia o Evangelho", afirma um padre de São Paulo. Já nas assembleias, a sintonia permanece: Malafaia segue atacando o governo Lula e defendendo o legado bolsonarista, prova de que, para o bolsonarismo, as igrejas evangélicas continuam sendo território seguro — e os católicos, uma fronteira em disputa.