Capital atinge maior número da série histórica, enquanto casos recentes evidenciam a escalada da violência de gênero
Lívia Gennari Publicado em 02/12/2025, às 12h08 - Atualizado às 14h09
A violência contra mulheres atingiu um patamar inédito na cidade de São Paulo em 2025. Entre janeiro e outubro, a capital registrou 53 feminicídios consumados, o maior número já contabilizado desde o início da série histórica, em 2015. Mesmo sem os dados dos dois últimos meses do ano, o total já supera todos os levantamentos anteriores, baseado em dados do Portal da Transparência da Secretaria de Segurança Pública do Estado.
A contagem considera apenas os casos consumados, excluindo tentativas. O feminicídio passou a ser tipificado na legislação federal em 2015 e se aplica a homicídios motivados por violência doméstica e familiar ou por menosprezo à condição de mulher, com pena que pode chegar a 30 anos de prisão.
O cenário é igualmente preocupante no estado: foram 207 feminicídios entre janeiro e outubro, contra 191 no mesmo período de 2024, indicando um aumento de 8%.
Casos recentes expõem a escalada da violência contra mulher em SP
Além das mortes registradas, episódios recentes de extrema violência ilustram a gravidade do problema:
Na do último sábado (29), Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro pelo carro dirigido pelo ex-companheiro, Douglas Alves da Silva, de 26 anos, até a Marginal Tietê. Testemunhas afirmaram que o ataque foi proposital e motivado por ciúmes. A vítima teve as duas pernas amputadas após múltiplas cirurgias devido à extensão das lesões. O caso é investigado como tentativa de feminicídio.
Outro caso recente também chamou atenção para o aumento da violência de gênero na capital. Na última segunda-feira (1º), poucos dias depois do ataque na Marginal Tietê, Evelin de Souza Saraiva foi baleada ao menos seis vezes pelo ex-namorado dentro da pastelaria onde trabalhava, no Jardim Fontalis, zona norte da capital.
O agressor, Bruno Lopes Fernandes Barreto, fugiu após efetuar os disparos com duas armas de fogo. Segundo a polícia, ele não aceitava o fim do relacionamento e teria reagido com violência ao saber que a vítima estaria se envolvendo com outra mulher. Evelin segue internada em estado grave, e o caso foi registrado como tentativa de feminicídio no 73º DP (Jaçanã).
Para especialistas e organizações de defesa de mulheres, episódios como esses evidenciam que o feminicídio, antes de resultar em morte, costuma vir precedido de uma escalada de ameaças, perseguições e agressões. A avaliação é de que o poder público precisa reforçar mecanismos de proteção e ampliar o acesso a medidas preventivas como abrigamento, acompanhamento psicológico e resposta rápida às denúncias.
Enquanto a capital bate recorde de assassinatos de mulheres, as tentativas revelam uma violência que se repete, muitas vezes anunciada, e que segue transformando a rotina — e o futuro — de vítimas e famílias.