Investigação revela evidências de violência psicológica e ameaças, enquanto Cíntia busca justiça em meio a medidas cautelares
Gabriela Nogueira Publicado em 29/09/2025, às 18h11
O Ministério Público e o Poder Judiciário agora se debruçam sobre as alegações apresentadas no caso envolvendo o deputado estadual Lucas Diez Bove (PL), que foi indiciado pela Polícia Civil de São Paulo pelos crimes de perseguição e violência psicológica contra sua ex-esposa, a influenciadora digital Cíntia Chagas. O inquérito, que foi finalizado em 15 de setembro pela 3ª Delegacia de Defesa da Mulher na capital paulista, já foi remetido à Justiça para as devidas providências.
Segundo informações do G1, a investigação revelou evidências substanciais de que Bove submeteu Cíntia a uma série de ameaças e tentativas de controle sobre sua vida profissional. Durante seu depoimento, Cíntia relatou que recebeu mensagens do parlamentar insinuando que ele acabaria com sua carreira se ela não concordasse em assinar contratos com cláusulas abusivas.
A influenciadora também mencionou ameaças feitas pelo ex-marido relacionadas à divulgação de intimidades e à edição de vídeos que poderiam prejudicar sua reputação nas redes sociais. Cíntia, que conta com mais de 7,6 milhões de seguidores online, já havia registrado queixas anteriores contra Bove, denunciando episódios de abusos físicos e psicológicos durante o relacionamento que durou mais de dois anos.
No início de 2024, a Justiça havia concedido uma medida protetiva em favor da influenciadora e instaurado um inquérito para investigar os acontecimentos. A defesa de Chagas chegou a solicitar a prisão do deputado por descumprimento das medidas cautelares impostas.
Recentemente, o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) decidiu arquivar uma denúncia contra Bove relacionada à quebra de decoro parlamentar após as alegações feitas por sua ex-esposa. Testemunhas ouvidas no decorrer da investigação corroboraram os relatos de controle e desdém por parte do deputado.
A delegada responsável pelo caso, Dannyella Gomes Pinheiro, destacou que mesmo após a separação, Bove continuou a contatar Cíntia insistentemente e até utilizou intermediários para tentar se reaproximar dela, configurando assim atos de perseguição. No despacho final, a delegada afirmou que restou provado que o deputado praticou os delitos previstos nos artigos 147-A e 147-B do Código Penal no âmbito da Lei Maria da Penha.
Embora o inquérito não tenha culminado em indiciamento por lesão corporal — uma vez que não foram confirmadas as alegações acerca das marcas visíveis apresentadas por Cíntia —, o relatório enfatiza que as ameaças e comportamentos agressivos estão inseridos no contexto mais amplo da violência psicológica.
Simultaneamente ao inquérito policial, tramitava na Justiça uma medida cautelar solicitada por Bove visando proibir Cíntia de fazer publicações sobre o processo nas redes sociais, sob a justificativa de proteção a informações sigilosas. Inicialmente aprovada por um juiz do Juizado Especial Criminal, essa medida gerou controvérsias.
Na última quinta-feira (25), o Ministério Público pediu a revogação dessa cautelar. O promotor Fernando Cesar Gomes de Souza argumentou que não existe um inquérito específico investigando a suposta violação do sigilo pela influenciadora, tornando inviável essa restrição. O MP alertou ainda que manter tal proibição poderia configurar um risco de "violência institucional" contra Cíntia e cercear indevidamente sua liberdade de expressão.
Atualmente, a decisão sobre a permanência ou revogação da medida cautelar está nas mãos do juiz responsável pelo caso. Caso a solicitação do MP seja aceita, Cíntia poderá retomar suas publicações livremente. Entretanto, até uma decisão formal ser proferida, a medida continua em vigor.
Cíntia Chagas declarou à TV Globo que espera que seu caso sirva como exemplo para outras mulheres enfrentando situações semelhantes. Em suas palavras: "Sou uma das muitas vítimas dele. Alguém que pratica violência contra mulheres não pode legislar". A defesa da influenciadora considera o indiciamento um avanço significativo, apesar da expectativa pela formalização da denúncia do Ministério Público.
A defesa do deputado contestou as acusações apresentadas e apresentou testemunhos negando comportamentos agressivos por parte dele. Em um vídeo postado nas redes sociais em 11 de outubro de 2024, Bove se manifestou sobre as alegações e declarou estar proibido judicialmente de comentar o caso devido ao segredo judicial aplicado. Em suas declarações, reafirmou sua inocência e expressou dor pela situação envolvendo alguém que amava profundamente: "Jamais agrediria uma mulher", disse ele. A situação continua em desenvolvimento enquanto aguarda-se novas deliberações judiciais.