Quinta fase da investigação resulta em mandados contra Marcio Poncio, o bicheiro Adilsinho e o ex-deputado Rodrigo Bacellar, com bloqueio de até R$ 22 milhões
Letícia Sales Publicado em 02/07/2026, às 08h05
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (2) a quinta fase da Operação Unha e Carne, que apura a atuação da chamada "Máfia do Cigarro" e sua possível infiltração em esferas do poder público fluminense. Entre os alvos está o pastor Marcio Poncio, capturado em um flat na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Além da prisão de Poncio, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, assinou mandados contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como líder do esquema, e contra o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar. Os dois já estavam presos, mas Bacellar será transferido do Complexo Penitenciário de Bangu para uma unidade federal. A Justiça também autorizou 14 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens que podem chegar a R$ 22 milhões.
De acordo com a corporação, a nova etapa busca "aprofundar a apuração de indícios de lavagem de dinheiro praticada pelo 'capo' da nova cúpula do jogo do bicho e possível ramificação do esquema junto a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do RJ".
Origem no monopólio do cigarro
A investigação atual tem raízes na Operação Fumus, deflagrada em junho de 2021 para desarticular o monopólio da venda de cigarros no Grande Rio. Na época, Adilsinho era um dos alvos, mas conseguiu escapar da prisão — situação que só se reverteu quase cinco anos depois, em fevereiro deste ano, quando foi localizado em Cabo Frio após monitoramento por drones.
Ainda durante a Fumus, agentes apreenderam planilhas com registros de supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e uma contabilidade associada à lavagem de capitais. Segundo a PF, esse material chamou a atenção dos investigadores pela indicação de repasses financeiros diretos a agentes políticos do estado.
Quatro fases até aqui
A Unha e Carne nasceu de outra frente de apuração. Entre dezembro de 2025 e maio de 2026, a operação teve quatro etapas voltadas, inicialmente, a um suposto vazamento de informações sigilosas sobre ações policiais contra o Comando Vermelho.
A primeira fase, em dezembro de 2025, teve como alvo o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, hoje cassado. Ele teria repassado dados da Operação Zargun — deflagrada em setembro contra a facção — beneficiando o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como articulador político do grupo criminoso.
Na segunda fase, ainda em dezembro, a PF prendeu o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do TRF-2, sob suspeita de ser a origem do vazamento que teria chegado a Bacellar. A corporação afirmou ter encontrado mensagens e registros de chamadas que indicariam proximidade entre os dois e possível troca de favores.
Bacellar voltou a ser preso na terceira fase, em 27 de março, após a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral no caso do escândalo da Ceperj. Já a quarta etapa, em 5 de maio, resultou na prisão do deputado estadual Thiago Rangel, suspeito de comandar fraudes em compras e obras da Secretaria Estadual de Educação do Rio.
Todo o conjunto de investigações foi incorporado ao contexto da ADPF das Favelas, ação em tramitação no STF que determinou à Polícia Federal apurar as conexões entre grupos criminosos violentos e agentes públicos no Rio de Janeiro.