Veronica Oliveira, conselheira tutelar que acompanhou Gerson por oito anos, relata rejeição familiar, ausência de suporte especializado e sucessivas falhas da rede pública
Lívia Gennari Publicado em 04/12/2025, às 10h00
A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, conhecido como 'Vaqueirinho', atacado por uma leoa após invadir uma jaula no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, reacendeu discussões sobre falhas estruturais na atenção à saúde mental de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Para a conselheira tutelar Veronica Silva de Oliveira, que acompanhou o jovem por oito anos, o episódio apenas expôs uma negligência que, segundo ela, se arrastou desde a infância até a adolescência dele.
Veronica contou, em entrevista exclusiva ao Diário de São Paulo, que conheceu Gerson quando ele tinha 10 anos. Desde então, o Conselho Tutelar de Mangabeira solicitou avaliações, acolhimento institucional e atendimento especializado — pedidos que, afirma, não foram atendidos de forma adequada pela rede pública.
Colocávamos ele no acolhimento e cobrávamos que nossas solicitações fossem atendidas. Infelizmente, o poder público deixa a desejar. Ele era uma criança tranquila. Foi muita negligência”, diz.
A conselheira relata que, mesmo com sinais claros de deficiência intelectual e histórico familiar marcado por esquizofrenia severa — da mãe e dos avós —, os serviços de saúde recusaram diagnósticos formais.
Eles (os médicos) diziam que o problema de Gerson era comportamental. Ele precisava de uma residência terapêutica. Ele passava alguns dias internado, mas os médicos liberavam e diziam que ele não tinha nada.”
Rejeições sucessivas e trajetória marcada por vulnerabilidades
A conselheira conta que a vida de Gerson foi marcada por abandonos. A mãe perdeu a guarda dele e dos irmãos, que acabaram adotados — todos, exceto ele. Anos depois, o menino reencontrou o pai biológico, mas a convivência durou pouco. Segundo a conselheira, o homem havia se casado e estava a espera do segundo filho.
O pai percebeu que ele tinha um distúrbio e disse que não ficaria com ele para não colocar em risco o bebê que estava chegando. Ele entregou Gerson no conselho tutelar. Você imagina passar por isso?”, relata.
A conselheira afirma que tentou localizar parentes ao longo do acompanhamento, mas não encontrou rede familiar capaz de assumir seus cuidados.
Nunca conseguimos falar com a família dele. As poucas pessoas existentes tinham adoecimento mental.”
O salto para a vida adulta e as consequências de crescer sem rede de apoio
Já na juventude, Gerson alternava períodos de acolhimento e de permanência nas ruas, onde, segundo a conselheira, também sentia medo. Entre os 17 e 19 anos, ele teve várias ocorrências envolvendo dano qualificado: danificou portões de instituições públicas, arremessou pedras e paralelepípedos contra viaturas policiais e tentou arrombar um caixa eletrônico.
Para Veronica, esses atos não eram apenas impulsivos:
Ele queria ser preso. Tinha medo de ficar nas ruas e se sentia seguro dentro dos presídios. Ele dizia que os presos cuidavam dele, os agentes penitenciários cuidavam dele, lá ele se sentia mais seguro do que solto nas ruas. Uma população marginal cuidou dele e o poder público não conseguiu fazer isso.”
Após deixar o sistema prisional, Gerson buscou a conselheira para tentar reorganizar a vida.
Ele vinha me procurar para pegar documentos e arrumar um emprego. Dizia que queria ser um trabalhador.”
A conselheira afirma que, por anos, houve preocupação real de que o quadro evoluísse para situações de risco.
Vivíamos pisando em ovos com medo de um surto. A gente tinha medo, mas também muita esperança, porque ele não era mau. Eu não conseguia ver maldade nele.”
A morte que simboliza um colapso
Ao receber a notícia do ataque no zoológico, Veronica diz ter se sentido arrasada.
Ele era encantador, sorria muito. O sonho dele era viajar o mundo, ir para um safári na África, domar leões.”
Para ela, porém, o que chocou não foi apenas o episódio em si:
Não foi a morte de Gerson. Ele já estava morto. Foi a forma como ele morreu.”
"Toda a rede falhou"
A conselheira afirma que a situação expõe falhas profundas na política de saúde mental.
É uma sensação de impotência. Toda a rede falhou — do conselho tutelar ao Tribunal de Justiça. Se a gente tivesse feito nosso dever de casa direitinho, nada disso teria acontecido. Acho que poderíamos ter feito mais.”
Indignada com a postura de parte dos profissionais que acompanharam o caso, ela diz esperar que o episódio sirva de alerta.
Não dá para brincar com saúde mental. Não dá para ficar falando coisa bonita, com parecer científico, quando na vida real quem sabe é quem lida. Todo mundo agora está percebendo o gargalo da saúde mental", afirmou.
Em um laudo médico emitido em fevereiro de 2023 pelo psiquiatra Klecyus Cabra, da Policlínica Municipal de Mandacaru, o médico registra que Gerson realizava tratamento psiquiátrico e tinha hipótese diagnóstica de CID-10 F91.1 e F70.1 — distúrbio de conduta não socializado e retardo mental leve associado a comprometimentos significativos de comportamento.
Segundo o documento, ele apresentava comportamento disruptivo, dificuldades adaptativas, oscilações de humor, labilidade afetiva, agitação psicomotora e impulsividade. O médico orientava a necessidade de acompanhamento multidisciplinar em regime integral, visando possível remissão parcial ou completa das alterações psicopatológicas.
O caso de Gerson evidencia, segundo a conselheira, falhas significativas na articulação entre serviços de saúde mental, acolhimento institucional e proteção social. Para Veronica, a trajetória do jovem expõe a urgência de melhorias na rede de atendimento a crianças e adolescentes com transtornos e vulnerabilidades.