Investigação revelou que comerciantes que não conseguiam pagar eram obrigados a buscar empréstimos com agiotas ligados ao esquema
William Oliveira Publicado em 17/05/2025, às 11h20
A Justiça Militar de São Paulo condenou, nesta sexta-feira (16), dois policiais militares acusados de integrar uma milícia que extorquia comerciantes na região do Brás, no centro da capital paulista.
Após um julgamento que durou mais de nove horas, o cabo José Renato Silva de Oliveira foi sentenciado a seis anos, dois meses e doze dias de prisão, em regime semiaberto. Ele foi absolvido das acusações de roubo e extorsão. Sua esposa, a sargento Lúcia Ferreira de Oliveira, também foi condenada, recebendo uma pena de três anos, sete meses e seis dias em regime aberto.
Outros dois réus, o 1º sargento Wellington Stefani e o 2º sargento Humberto de Almeida Batista, tiveram julgamento inconclusivo. Dois juízes votaram pela condenação, um pela absolvição e um se declarou impedido. O caso deles será transferido para a Justiça comum.
As condenações são fruto da Operação Aurora, deflagrada em dezembro de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pelas Corregedorias das polícias Civil e Militar.
A defesa dos réus, representada pelos advogados José Miguel da Silva Júnior e Márcio Silva, anunciou que vai recorrer, alegando que a decisão não condiz com as provas do processo. Destacaram ainda que Lúcia foi condenada por um placar apertado de 3 a 2 e que existem nulidades processuais que serão apontadas no recurso.
As investigações começaram em março de 2024, após quatro comerciantes denunciarem extorsões. A Corregedoria da PM concluiu o inquérito em janeiro, e cinco policiais foram presos na operação. Quatro foram denunciados e julgados, enquanto um quinto não foi formalmente acusado.
Segundo o Ministério Público, a milícia atuava há mais de um ano, extorquindo comerciantes, principalmente imigrantes, cobrando semanalmente valores entre R$ 200 e R$ 300, além de uma "luva" anual que podia chegar a R$ 15 mil. O coronel Fábio Sérgio do Amaral, corregedor da PM, classificou a prática como uma exploração brutal de pessoas vulneráveis.
A investigação revelou ainda que comerciantes que não conseguiam pagar eram obrigados a buscar empréstimos com agiotas ligados ao esquema, que cobravam juros abusivos. Um equatoriano, após atrasar o pagamento, teve a casa invadida e foi agredido por PMs.
As vítimas também relataram remoções forçadas, ameaças e uso da farda e viaturas da PM para intimidação. O caso reforça um histórico de denúncias no Brás, onde, desde 1999, já foram registradas fraudes, extorsões e até assassinatos ligados a esquemas de corrupção envolvendo comércio de rua.