Ônibus fantasmas

Investigação aponta uso de "ônibus fantasmas" em suposto esquema de lavagem de dinheiro do PCC

Polícia Civil e MP afirmam que empresa teria inflado patrimônio para disputar licitações; Operação Última Parada afastou diretoria e prendeu investigados

A defesa do vereador Senival Moura alega inocência, enquanto a Transunião promete cumprir as determinações das autoridades competentes - Imagem: Reprodução/ Transunião

Letícia Sales Publicado em 29/06/2026, às 09h07

A investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) revelou um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) que teria utilizado a empresa de transporte Transunião para fraudar licitações e ocultar recursos de origem ilícita. Entre as estratégias apontadas pelos investigadores está o uso dos chamados "ônibus fantasmas", que serviriam para inflar artificialmente o patrimônio da concessionária.

Segundo a apuração, esses veículos não eram inexistentes, mas apareciam nos registros da empresa como novos bens incorporados ao capital social, embora, na prática, já integrassem a frota da própria Transunião ou estivessem registrados em nome de pessoas sem capacidade financeira para adquiri-los, como motoristas e cobradores apontados como "laranjas".

De acordo com a investigação, essa estrutura permitiu que o capital social da empresa saltasse de R$ 105 mil para R$ 50,2 milhões por meio da inclusão desses ônibus como supostos aportes patrimoniais feitos por acionistas.

As apurações também identificaram um modelo que separava os proprietários formais dos veículos daqueles que realmente controlavam os lucros da operação. Planilhas apreendidas durante a investigação indicam a existência de duas classificações internas: o "cooperado", responsável apenas pela titularidade do ônibus, e o "cooperado oficial", apontado como o verdadeiro beneficiário econômico do veículo.

Segundo a Polícia Civil, essa estrutura teria sido utilizada para ocultar a identidade dos reais controladores da empresa e dificultar o rastreamento dos recursos movimentados.

Além disso, investigadores encontraram indícios de irregularidades em contratos de locação de ônibus entre a Cooperunião e a Transunião. Em alguns casos, os veículos utilizados para justificar as cobranças já pertenciam à própria concessionária, sem comprovação de que os serviços contratados tenham sido efetivamente prestados.

As suspeitas fazem parte da Operação Última Parada, deflagrada na última quinta-feira (25), que investiga crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraude em licitações públicas.

A ação cumpriu cinco mandados de prisão temporária e 104 de busca e apreensão. Até o momento, foram presos o vereador da capital paulista Senival Moura (PT), Jair Ramos de Freitas, conhecido como "Cachorrão" e apontado como diretor informal da Transunião, e Devanil de Souza Nascimento, o "Sapo", motorista e homem de confiança do parlamentar.

Entre as medidas determinadas pela Justiça estão o bloqueio de 117 veículos, três embarcações, o sequestro de 21 imóveis e o bloqueio de R$ 194,4 milhões em contas ligadas aos investigados.

Com a operação, a diretoria da Transunião foi afastada e a Prefeitura de São Paulo determinou intervenção na concessionária para garantir a continuidade do serviço.

Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte (SMT) e a SPTrans afirmaram que o atendimento à população segue normalmente.

"A operação dos ônibus da empresa Transunião segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população. A Administração Municipal aguarda a notificação oficial da decisão judicial para avaliar seus termos e definir as providências necessárias a partir de agora."

A defesa do vereador Senival Moura afirmou que o parlamentar é inocente.

"É inocente e de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos perante as autoridades competentes."

Já a defesa da Transunião informou que cumprirá todas as determinações das autoridades e defendeu a legalidade das operações da empresa.

"Na qualidade de advogado da empresa Transunião Transporte S.A, em atendimento à solicitação, venho por meio deste, comunicar a V.Sas. que toda determinação do Poder Público será acatada pela empresa, em especial a intervenção da SPtrans sobre a empresa.

Certo que essa intervenção irá demonstrar que a empresa possui somente recursos de natureza pública e não existe ingresso de dinheiro ilícito e, após o período da intervenção, a empresa será devolvidas pelos interventores, assim como ocorreu em outras empresas de transportes.

Certo de ter atendido a solicitação de V.Sas., nos colocamos a inteira disposição para quaisquer novos questionamentos."

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